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quarta-feira, 27 de julho de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont -- Parte 22.



GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 22.

Subo no alto do Pão de Açúcar e engulo este livro folha por folha, se dois aviões, um de 300 e outro de 600 quilos de peso, se ergueram alguns metros do chão em pista plana e em dia sem vento, acionados, respectivamente, por motores do primeiro ano do século, de 16 e 24 cavalos, queimando gasolinas de 1903 ou 1905, pouco superiores aos querosenes de hoje – e voarem, o primeiro durante três minutos e meio e o segundo durante meia hora, conforme os Wright afirmam ter voado. Disseram eles que, ao subir em 1903, o vento soprava com uma velocidade de 22 milhas (cerca de 35 quilômetros). Comenta espirituosamente Gago Coutinho que, com semelhante vendaval, não seria só o biplano dos patuscos “inventores” a voar. Voaria telhados de zinco, andaimes, guarda-chuvas abertos, chapéus, paletós, saias de mulheres e roupa na corda ou em coradouros. Iria tudo pelos ares.

Provem, hoje, os Estados Unidos, mas honestamente, a superioridade aviatória dos dois melros sobre Santos Dumont: num terreno plano e em dia calmo – sem trilho de lançamento, pilão ou catapulta – levantem do chão o primeiro aparelho deles, com o seu motor-1903 de 16 cavalos e 4 cilindros alimentado a gasolina da época, aplicando-lhes três rodas para facilidade de decolagem. Repitam depois a prova, nas mesmas condições, com o suposto aparelho de 1905, de peso maior (cerca de 600 quilos) e motor de 24 h.p. Eu assistirei. Se as experiências forem bem sucedidas, correrei logo para o alto do Pão de Açúcar e cumprirei o prometido. Engolirei este livro folha por folha confessando, em público e raso, que os Wright e não Santos Dumont iniciaram, no mundo, o voo mecânico.

Escrevendo em Paris no jornal Le Fígaro Littéraire a 03 de julho de 1956, o velho Gabriel Voisin, que assistiu aos voos de 10, 12, 20 e 30 metros de Wilbur Wright em agosto de 1908 no Hipódromo de Hunaudières (antes de ele modificar o seu aeroplano e voar em Auvours aproveitando-se das experiências de Santos Dumont, Ferber, Delagrange e do próprio Voisin) espanta-se por teimarem ainda hoje os Estados Unidos em “descobrir qualquer valor nessa máquina inutilizável dos Wright, pois nada do que eles inventaram subsistiu no que veio depois”.

Em 1903 os Wright planavam: não voavam. Experimentariam, quando muito, motores elétricos. Isto no máximo. Voar invisivelmente com o motor a petróleo, que ronca de modo extraordinário, e de mais a mais a baixa altura (pois o recorde vertical de 100 metros só foi obtido em 18-12-1908) é absurdo.

Demonstrei, exaustivamente, que em 1906 não houve jornal da Europa que atribuísse aos Wright a paternidade do voo a motor. E ao jornais dos Estados Unidos, mesmo os que procuravam torcer a verdade para servir esses cavalheiros, classificavam-no como simples “experimenters” – “experimentadores” – sem os sobrepor a quaisquer outros. Não creio que, depois do que deixo escrito, haja alguém de boa fé, ou mesmo de má fé, que duvide da prioridade de Santos Dumont.

GONDIN DA FONSECA


quarta-feira, 13 de julho de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 21.



GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 21.

Existe a carta que, em 1904, escreveram a L’Aérophile, de Paris, sobre os voos confidenciais de 17-12-1903. Apresentada, todavia, em 1944, por um dos seus hidrófobos partidários, s engenheiros de São Paulo, técnicos de aviação, F. A. Brotero e Romeu Corsini – ambos honestamente declararam que, por ela, ninguém afirmaria terem-se os dois parceiros erguido do chão um milímetro. “Pela descrição sumária e tecnicamente incorreta que fazem do aparelho – assevera Corsini – nada se poderia afirmar. De fato, nem porque se chame aeroplano a um aparelho qualquer será obrifado a voar. No caso em apreço, a escassez de dados -e quase absoluta, forçando a um único pronunciamento seguro: sem a admissão, por nós, de determinadas condições imprescindíveis, não podemos julgar da possibilidade de voar uma tal máquina.” E adiante: “nada escreveram sobre o assunto que possa pesar decididamente a seu favor”. Salienta Brotero: “os dados fornecidos são omissos e incompletos. Sobre a questão dos conhecimentos aeronáuticos dos autores dessa máquina, se me cingir exclusivamente ao que está na carta, é impossível fornecer qualquer resposta.

Pesava o “14-bis”, a princípio, cerca de 200 quilos; e depois, segundo leio em revistas europeias e americanas de 1906, mais ou menos 300, o que equivale a umas 600 libras. Precisou de um motor de 50 h.p. para se erguer do chão. Ora, o fabuloso, o mitológico biplano dos Wright – elucida a revista The Scientific American de 3 de novembro de 1906 – pesava o dobro. Dispunha, no início, quando o seu peso ascendia apenas a 335 quilos, de um motor de 16 cavalos e 4 cilindros (segundo confissão dos mesmos Wright) substituído depois por um de 24 cavalos. Transcrevo, exatamente traduzidas, as palavras da citada revista Ianque:

O jovem brasileiro, embora com um aparelho do mesmo tipo usado pelos experimentadores americanos, mas de metade do seu peso (of about one-half its weight), achou que um motor 50 cavalos era necessário para se erguer ao ar e a prosseguir a uma velocidade de 25 milhas horárias – enquanto os Wright, com um aparelho que pesava o dobro e tinha a metade da força (of twice the weight and half the power), alegam ter desenvolvido quase o dobro da velocidade (38 milhas por hora)”.

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 20.

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 20.

Eu tinha para todas essas ideias uma inferioridade imensa. Imaginava bem as coisas, mas não sabia desenho de máquinas. Nessa época, porém, eu morava em Nova Iorque com o engenheiro Raul Ribeiro da Silva, que não só desenhava admiravelmente, como era um cérebro de inventor, cheio de ideias originais. Ademais, conhecia bem a mecânica. Associei-me a ele e pedimos patente. Foi isso no dia 5 de novembro de 1918. O pedido de patente teve o número 261.182. Nele aparece o nome de Raul Ribeiro da Silva antes do meu, por pura gentileza de minha parte. Mas tratava-se evidentemente da velha ideia de 1911 desenvolvida. A patente foi concedida.

Foi concedida a ele então, como havia sido concedida a dos Wright em 1906. E ele inventou tanto o avião a jato em 1918 como os Wright inventaram em 1903 ou 1905 o avião mecânico… “Ninguém acende uma lâmpada e a põe debaixo de um alqueive” – disse Cristo no Sermão da Montanha (Mat. 5,15). Quem, tendo descoberto a navegação aérea a motor, conservaria em segredo esse valioso feito durante cinco anos – de 1903 a 1908? Quem?

Ainda que toda a imprensa do mundo falasse em 1903 do aeroplano a motor dos Wright, isto de nada valeria sem provas documentais, fotografias, exatas, de que eles haviam voado. Toda a imprensa do mundo falou dos discos voadoras de Marte. E isso não demonstrou cabalmente a sua existência, porque dela não se tiveram provas documentais, fotografias, exatas.

Vimos, que, nos Estados Unidos, só quatro ou cinco jornais veicularam boatos de voos, desses sujeitos. Mas quantos se calaram? Todos os restantes. Milhares. E entre esses milhares os de Dayton, Ohio (conforme atrás referimos). Eles voavam ali, em Springfield, percorrendo, ruidosamente, segundo disseram, a 39 metros de altura, distâncias de 4,500 metros (1904) 18 quilômetros (26 de setembro de 1905) e 39 quilômetros (5 de outubro do mesmo ano) – e ninguém os enxergava, ninguém ouvia coisa alguma. Será possível? Qual! Deixemo-nos de infância! Brincadeira tem hora.

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 19.

Blériot
 

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 19.

Á 22 de maio de 1906 – bradam ainda os defensores da prioridade dos Wright – eles obtiveram uma patente de avião com motor. E Santos Dumont ainda não voara! Sai desta, seu Gondin!

Chantagem! Pirataria! Em maio de 1906 a quadrilha Wright-Chanute possuía a certeza plena de que alguém na França, na Inglaterra ou em qualquer parte da Europa ia voar. Existiam prêmios de aviação instituídos. Havia gente estudando, experimentando. Chocava-se o ovo. O pinto quebraria a casca mais hoje mais amanhá. Então, que golpe baixo arquitetaram? Registro de patente. Talvez para impedir que Santos Dumont ou alguém do seu grupo voasse nos Estados Unidas. Eram enredadores, mistificadores, litigantes, gananciosos.

Mas que prova essa patente de invenção? Simplesmente que a “gang” Wright-Chanute arquitetava, no cérebro, um aparelho de voo mecânico. Mais nada. Pensavam. Isso em maio de 1906. Isso quando Santos Dumont, Blériot e outros não pensavam apenas – mas realizavam.

Se registro de patente provasse prioridade, a invenção dos aparelhos a jacto devia ser atribuída aos Medeiros e Albuquerque. Diz ele no segundo voluma das Memórias.

Em Paris, em 1911, eu li a descrição dos motores de aviões. Neles se produzem explosões de gases, que impelem os pistões dos motores e é esse movimento aproveitado para fazer girar as hélices. Desde logo que acudiu a ideia de que seria possível suprimir os motores: Fazer com que as explosões dos gases movessem diretamente a própria hélice. Para isso, um meio simples: se o eixo das hélicas fosse oco e fossem ocas e perfuradas as bordas das pás das mesmas de um dos lados, os gases das explosões, entrando pelos eixos e escapando-se por um dos lados das pás fariam girar as hélices. Seria exatamente o mesmo princípio dos torniquetes hidráulicos. Apenas, em vez de água, gases.

Como alguém me tivesse encorajado, decidi-me a pedir patente para a minha ideia. Foi a patente francesa nº 427.217 de 13 de março de 1911. Com a minha absoluta inabilidade para explorar coisas industriais, nunca procurei tirar proveito disso. Sete anos depois, Nova Iorque, meditando sempre sobre o caso, vi que se podia ir mais adiante. Em 1911, eu perguntara:”Para que motor?” Em 1918, eu perguntei: “E para que hélice?” Os gases, em vez de passar pelas pás das hélices, para obriga-las a se moverem, podiam ser projetados diretamente na atmosfera.

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 18.

 

Capitão Feber

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 18.

E a Smithsonian Instituition, de Washington? Esse museu de ciências, dos maiores do mundo, jamais admitiu os Wright como pioneiros da aviação antes de outubro de 1942. Repugnando-lhe confessar a prioridade de Santos – pois é incoercível o desprezo que todo o ianque nutre (de modo claro ou subreptício) pelos “decadentes” povos latinos, atribuiu a Langley a paternidade do voo a motor, embora o seu “Aerodrome” virasse submarino todas as vezes que ele se arriscava a experimentá-lo perto do Rio Potomac. Nunca voou. A teoria da Smithsonian Instituition era de que, se lhe pusessem rodas e um motor mais leve, se ergueria no ar. Claro! Mas com rodas e um motor mais leve já o aparelho não seria o de Langley… escreve a revista Times de 02-11-42:

Orville Wright got só mad about i that in 1928 he sent the original Kitty Hawk machine to a London Museum. Kindly Dr. Abbot, naturally perturbed at the loss of a possible exhibit, began to turn the matter over in his mind. After 14 years of gentle revolving, he made his decision jast week: the Wright brothers were indeed the first to make a sustained flight in a hea vier-than-air-machine”.

Se em 1942, só após a segunda edição do meu livro e sua repercussão dentro e fora do Brasil é que a Smithsonian Instituition , de Washington, vendo aluídas as pretensões ianques a primazia do voo mecânico, aderiu aos Wright. Pasmem!

Mal Santos Dumont realiza o primeiro voo a motor no mundo, em outubro de 1906, Wilbur Wright escreve dos Estados Unidos ao Capitão Ferber, pedindo-lhe que o elucide sobre a forma e a estrutura do “14-bis”. Ele tem rodas, estranha o pândego! Que excentricidade! Rodas! “Para partir, Santos Dumont há de rodar sobre um campo extenso e bem uniforme. Graças a um pilone de lançamento, Orville e eu iniciamos o voo com velocidade, de modo muito mais prático.” Não voavam. Planavam. Mesmo em 1908, quando em Paris o aeroplano a motor já não constituía segredo para ninguém, a geringonça dos Wright só descia pelos seus próprios meios. Subir? Não! Não subia por si.

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Grandes vultos: Samtos Dumont - Parte 17.


William Howard Taft

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 17

Isto mesmo repete em 1911 o Sr Richard Ferris, em seu livro How to fly, edição de Thomas Nelson & Sons, Nova Iorque, pág. 395: “Estes (os voos de Santos Dumont em 1906) foram, na Europa, os primeiros realizados por aparelhos mais pesados que o ar e, bem assim, os primeiros voos públicos do mundo”. --These were first flights of heavierthan-air machines in Europe, and the first flights anywhere”.

Ainda em 1953, numa biografia do grande brasileiro dedicada à juventude ianque e bastante inspirada nos meus escritos (Bicyclesin the sky, Edtôres Ch. Scribner’s Sons, New Tork) proclama a Senhora Rosa Brown: “Santos Dumont made the first public showing of an airplane in flight, for the Wrights did not make a public flight until 1908”. “Santos Dumont realizou a primeira demonstração pública de um aeroplano em voo, pois os Wright não voaram publicamente antes de 1908”.

Não ignora que, em 1903, alguns jornais dos Estados Unidos noticiaram voos a motor dos Wright. Fizeram-no por sugestão de um inteligentíssimo pirata americano por eles mancomunado: Octavio Chanute, sujeito bastante instruído e de ampla goela – ávido de dinheiro. Foram esses jornais o World de Nova Iorque, de 19 de dezembro, o New York Daily Tribune, da mesma data, o New York American e o Virginian Pilot, de Norfolk. Nenhum desses papéis públicos, entretanto, autêntica as fantasias que imprime – Não direi já com fotografias, mas com gravuras ou simples desenhos imaginosos. E nenhum declara (isto é essencialíssimo) que viu o que divulga. Nenhum! Todas as notícias são de orelhada, de palpite – não de vista. E os Wright, temendo que alguém se dispusesse a averiguar a autenticidade de tais balelas (pois tratava-se de voos planados e não a motor) declararam imediatamente que elas, na realidade, carecia de consistência. Que eram exageradas! Desmentiram-nas preto no branco, por intermédio de Octavio Chanute. Redondissimamente.

Claro que eram exageradas, falsas! Tão exageradas, tão falsas, que, em fins de 1905, o Ministro da Guerra de Washington, dirigido por William H. Taft, ainda não acreditava terem eles a sua passarola em estado de alçar voo – “brought to the stage of pracitical operation” (John R. Mc. Mahon, The Wright Brothers). Os Estados Unidos mostravam-se então vitalmente interessados em solucionar o problema do voo mecânico. Em Washington, o Congresso votara 100.000 dólares (cem mil dólares!) para tal fim e, com uma parte desses fundos o governo financiaria as experiências de Langley. Gastaria um milhão, dois, dez! Pois nessa época, respondendo a uma carta em que os Wright propunham a venda ao Estado de sua engenhoca, William Howard Taft, de Ohio, da terra de Orville, deu o contra! Ignorava as proezas dele e do mano em Dayton, Ohio. Ele, Taft, nascido, criado e educado em Cincinnat – vizinho de Dayton! Ele que tinha em Dayton centenas de amigos e que sempre passava por lá. Ele, homem culto, super informado, futuro presidente dos Estados Unidos. É de arrasar! Escachante!

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 16.



GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 16.

Muito mais decente a atitude do Herald e de outros grandes jornais e revistas de Nova Iorque, Chicago, e até de São Francisco admitindo lisamente a vitória do nosso patrício como autor do primeiro voo mecânico do homem. Não é aqui meu intuito, porém, registrar a opinião dos que lisamente admitiram essa vitória, e que foram todos, por assim dizer, em 1906 – mas reproduzir as dos raríssimos que a negaram e mostrar-lhes a improcedência. Do contrário – fosse outro o meu critério – este livro transformar-se-ia numa poliantéia infinita, fatigante.

A revista Scientific American, não desejando que a paternidade do primeiro voo em aeroplano, a luz do dia, pertença a um south american, apela para Sir Hiram Maxim. Ele, Maxim, teria sido o primeiro a voar!

Mas a Illustrated London New na entrevista com Santos Dumont a que referimos, assevera categoricamente que o sucesso do brasileiro nada tem de semelhante com o pretendido voo de Sir Hiram Maxim, cujo aeroplano rolava sobre trilhos de ferro e não se erguia do chão. Também o dos Wright não se erguia, nem em 1908!

Aliás a Enciclopédia Britânica informa sobre o aeroplano de Maxim: “on each of the two occasions in 1903 on which it was tried something went wrong with the launchig arrangements and the machine was wrecked.” – “Das duas vezes em que o experimentaram, em 1903, alguma coisa não funcionou no arranjo para o arremesso ao ar, e a máquina espatifou-se”.

Não esquecer que Sir Hiram Maxim era inglês adotivo, e inglesa a Illestrated London News.

Estabelecemos, portanto, nas páginas anteriores, o fato indestrutível de que parte da imprensa americana reconhece em Santos Dumont – Santos Dumont: o primeiro homem que voou em aeroplano com motor. Outra parte, desejando extorquir para os Estados Unidos a glória do brasileiro, tem de afirmar, entretanto, que ninguém viu voar os Wright; que “the first sucessful trials of an aeroplane that were freely open topublic obsevation, took ĺace in Paris ob September 15”. “As primeiras experiências realizadas com sucesso por um aeroplano, e que o público pôde ver livremente tiveram lugar em Paris a 15 de setembro”.

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 15.


Demoiselle

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 15.

Transcrevendo, como se fosse na íntegra, um longo artigo de La Nature (Paris, 6 de outubro) do Sr. G. Chalmarès, informa a Literary Digest aos seus leitores: “This is very litle a source of energythat will enable him to fly through the air”. – “Isto é pouco realmente (o salto de 8 metros) mas suficiente para demonstrar que uma pessoa pode transportar consigo uma fonte de energia que a habilite a voar”. Está certo.

Em 1908, a máquina dos Wright era ainda, como frisamos e refrisamos, um aeroplano de parque de diversões, subindo de um trilho seguro a uma pilastra de 6 metros, e daí, por um sistema de pesos, projetando-se no ar. Se aterrasse fortuitamente num campo, a quilômetros de distância, tinha de ser transportado em caminhões ou carro de bois para junto de seu hangar – na hipótese de querer subir de novo – a fim de o reerguerem no trilho e o reatirarem no espaço. Isto em 1908. Em 1906, conforme não nos cansaremos de repetir, o “14-bis” (que se chamou, também, Oiseau de proie – “Ave de rapina”) ergue-se do chão por si mesmo; e em 1909 Santos Dumont ia visitar os seus amigos Rothschild com o “Demoiselle”, aterrando e subindo em qualquer parte.

A má fé da Literary Digest evidencia-se no fato de ela haver truncado insidiosamente o artigo de La Nature. Diz a revista francesa:

La journée du 13 Septembre 1906 sera désormais historique, car, pour la première fois, un homme s’est élevé dans l’air par ses propres moyens”. – “O dia 13 de setembro de 1906, será doravante um dia histórico, pois, nele, pela primeira vez um homem subiu ao ar valendo-se dos seus próprios recursos”.

A Literary Digest não traduziu esta parte, o que é grave: e errou na data escrevendo 15 de setembro em lugar de 13. O erro é venial, sem dúvida, mas demonstra insegurança, desleixo, leviandade, atrapalhação… A proeza de Santos Dumont incomodou-a de tal maneira que, no mesmo número, dá três notícias dela, sendo uma de página inteira.

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 14.



GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 14.

Patriótica, adversa em extremo a Santos Dumont, e invejosa de sua glória, a revista Lirerary Digest, de 24 de novembro de 1906, dedica-lhe, entretanto, uma página inteira, publica a fotografia do “14-bis” e declara, aludindo ao primeiro salto de 8 metros em Bagatelle:

!The first sucessful trials of an aeroplane that were freely open to public observatin took place in Paris on September 15 last”. – As primeiras experiências realizadas com sucesso por um aeroplano, e que o público pôde ver livremente, tiveram lugar em Paris a 15 de setembro último.

A seguir, informa cheia de malícia: “The experiments of the brothers Wright in this country were muche more extensive and successful, but the public was not allowed to note their details”.As experiências dos irmãos Wright neste país foram muito mais extensas (o voo de Santos Dumont tinha sido de 8 metros apenas) e bem sucedidas, mas delas (dessas tais experiências) não pôde o público observar quaisquer detalhes.

Isto equivale mais ou menos a dizer: “aqui nos Estados Unidos os Wright já voaram mais de 8 metros, mas ninguém viu. Creiam, por patriotismo”.

Voar secretamente, invisivelmente, vinte e quatro milhas em circuito fechado, como no ano de 1908 eles juraram ter feito antes de Santos Dumont, é acontecimento que só não espanta nos Estados Unidos.

Continua a Literary Digest: “As primeiras experiências do aeroplano de Santos Dumont apresentam, portanto, interesse especial, maior ainda, que os seus voos subsequentes, embora mais longos”. “The first trials of Santos Dument’s aeroplane therefore possess spedial interest, even more his subsequent flights, which have been much longer”. E adiante: “Since this memorable first trial, Santos Dumont has done much better”. – Desde essa memorável primeira experiência, Santos Dumont fez muito mais”.

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 9 de março de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 12.

Disputa da taça Archdeacon

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 12.

Mais tarde, em setembro de 1908, apresentam os Wright meia dúzia de fotos à Century Magazine, contam uma história de carochinha qualquer, afirmam que uma chapa é de 1903, outra de 1904, outra de 1905 etc., e todo o mundo logo concorda que os homens são os tais. Atribuem-lhes, imediatamente, a paternidade da aviação. Os sábios dos Estados Unidos acham irrefutáveis as provas exibidas. E pronto.

Quase todos os velhos amigos franceses de Santos Dumont o abandonaram em 1908 e – ou de boa fé, ou comprados pela propaganda ianque – terminaram por admitir a prioridade dos Wright sobre ele. Não lhes queiramos mal por isso. Santos Dumont era, pessoalmente, brusco, fechado e, por vezes, insuportável. Depois, não nascera na França, mas no Brasil. Cumpria aos brasileiros defender a sua glória. Não aos franceses. Nós é que oficialmente o desprezamos, quase o repelimos. O povo festejava-o. O governo, porém, nunca ligou importância aos seus triunfos. Jamais um representante do Itamarati esteve presente á suas experiências, prestigiando-o, animando-o, apoiando-o em caráter oficial

Apesar, porém, de muitos franceses concordarem depois de 1908 com a prioridade dos Wright (embora de Paris, em 1903 e 1904, não lhes fosse possível vê-los subir em Dayton, Ohio) – sempre todos proclamaram que o primeiro homem a erguer-se no ar, em público, no mundo, foi Santos Dumont. Em 1927, após o voo de Lindbergh, Luís Blériot – o herói que em 1909 atravessara em avião o Canal da Mancha – escreveu um livro de parceria com Edouard Ramond intitulado La Glorie des Ailes. E diz isto:

A 23 de outubro de 1906, diante da Comissão de Aviação, às 4 e 4” da tarde o aeroplano (“14-bis”) desgarra e, muito suavemente, perde contato com o solo… A multidão fica muda de espanto. Depois um frenesi a domina e ela precipita-se para o aparelho que, a uns setenta metros de distância, pousa novamente em terra… Carregam Santos Dumont em triunfo. Mas quando interrogam os comissários sobre a distância percorrida – o que era necessário saber para a conquista da taça Archdeacon (mínimo exigido, 25 metros) os comissários sentem-se embaraçados. Sob o império da emoção esqueceram-se totalmente de controlar… Não importa: a taça Archdeacon é concedida ao feliz voador. Um mês depois o recorde é levado a duzentos metros.

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GONDIN DA FONSECA


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 11.

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 11.

Era embaixador dos Estados Unidos em França, no ano de 1908, o Sr. Henry White, que despendeu muita força de dólar a fim de “convencer” a imprensa parisiense da prioridade dos Wright sobre o nosso patrício de Cabungu. Queria a grande nação americana fartamente desmoralizada, na época, pela sua conduta de gangster no Panamá, no México etc., e pela indecência endinheirada dos seus milionários (alguns deles positivamente ladrões como John D. Ronckfeller e Jay Gould ) – construir prestígio intelectual, ganhar fama de país nobremente votado às ciências e à conquista do futuro. Espoliar Dumont era fácil. Espoliou-o. Chegou até a mobilizar os reis da Espanha, da Itália e da Inglaterra, a fim de baterem palma aos Wright. O aeroplano com motor a petróleo representava (e ela bem o viu) a maior façanha inventiva do tempo, a cristalização de um sonho milenar do homem. Pertenceria aos Estados Unidos.

Deixando-se embora “convencer” do embuste dos Wright, a Ilustration publica sobre eles o seguinte, a 1 de setembro de 1908 pag. 168):

Nous ne croyons pas, par exemple, qu’aucune photographie authentique de leur machine volante ait jamais apparu aux États-Unis avant celles qui illustrent l’article du Century Magazine et que nous reproduisons ici Ce sont eux-mêmes qu’ont fournit à la revue ces épreuves”. Traduzo: Não acreditamos absolutamente que alguma fotografia autêntica da sua máquina voadora tenha jamais aparecido nos Estados Unidos antes das que ilustram o artigo do Century Magazine e que reproduzimos aqui. Foram eles mesmos que forneceram essas fotos à revista.

Quer dizer: ninguém se lembrou, nos Estados Unidos, de erguer os olhos para o ar quando os manos Orville e Wilbur voavam em 1903, 4, 5, embora o seu motor fosse, como não podia deixar de ser, extremamente ruidoso. Os jornais franceses (e a própria Ilustration) salientam o barulho infernal que o biplano fazia voando. Pois antes de 23 de outubro de 1906, meus senhores, ninguém viu nem ouviu coisa alguma de extraordinário na terra de Tio Sam, embora os Wright cobrissem então de um só voo, segundo posteriormente disseram, vinte e quatro milhas de distância em círculo fechado. Fantástico! E se alguém observou, não teve a ideia comum de bater uma fotografia. Não houve um desgraçado reporter que possuísse curiosidade bastante para indagar que besouro enorme seria aquele…

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 10.



GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 10.

Talvez julguem fastidioso e inútil reunir aqui maior número de provas, mas assim é necessário. Até 23 de outubro de 1906, não há um mísero jornal dos Estados Unidos, nem mesmo da terra dos Wright, que os acredite fotograficamente, documentadamente, com sucessos de voo em aeroplano com motor. A Europa também os desconhece, a fundo, nesse campo.

Todavia, enquanto nos cansamos em acumular fatos sobre fatos, os Estados Unidos continuam, com a máxima simplicidade, a crer apenas na palavra dos srs. Wrights e a afirmar que eles voaram em 1903. Mentira.

Mas porque motivo todos os historiadores ingleses e americanos não falam hoje, sequer, em Santos Dumont e no “14-bis”? Por que não averíguam pormenores; uns copiam os outros, e a verba de propaganda de Tio Sam é respeitável no câmbio atual. Política do dólar. O cruzeiro não vale nada no mercado externo e dólar vale muito. Riam-se de mim, seus incrédulos! Riam-se à vontade. Mas eu tenho razão.

Haverá porventura alguma possibilidade de me desmentirem? Nenhuma. As primeiras fotografias do aeroplano dos Wrigts, publicadas nos Estados Unidos aparecem na revista Century Magazine, em setembro de 1908. Quando nesse ano Wilbur partiu para a Europa, ia preso ao contrato de 500 mil francos a que alude Santos Dumont na passagem atrás citada. Foi o caso que um comitê de espertalhões franceses, presidido pelo repugnante trapaceiro Lazare Weiller, entrou em entendimentos com os dois célebres americanos a fim de, obtida a sua patente de invenção, a venderem a um governo qualquer por soma fabulosa. A maroteira falhou, mas Wilbur ainda conseguiu passar a mão em metade da quantia combinada; recebeu de Weiller 210 mil francos, equivalentes, então, a mais ou menos 50 mil dólares, alapardou-se com eles depois de voar em Paris e em Roma, e partiu para a sua terra, fundando ali uma companhia, a Wright Company, cujo inocente propósito consistia em assenhorear-se de direitos exclusivos para a construção de aeroplanos do mundo inteiro. Acabou enleando-se em dezenas de processos nos tribunais europeus e americanos, até que morreu de febre tifoide em 30 de maio de 1912. O irmão espichou em 1948, gozando tranquilo o seu inqualificável furto – o furto da glória de Santos Dumont.

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GONDIN DA FONSECA

 

Meus queridos amigos(as), seguidores(as) e visitantes!

A baboseira acima exposta foi a última postagem efetuada no ano de 2021. Aproveito a chegada do Natal para fazer uma pequena pausa destinada a um pequeno e merecido descanso, a fim de concatenar as ideias e recarregar as baterias, prometendo que, se DEUS quiser, retornarei em 2021, quando retribuirei todas às visitas, pois quem visita, espera ser visitado.

Aproveito também, para agradecer a valiosa companhia e compreensão de todos, pois sem essa extraordinária ajuda, jamais teria chegado aonde cheguei.

Muito obrigado de coração.

Mais uma vez, um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo para todos.

“QUE DEUS SEJA LOUVADO!”

Beijos no coração de todos.

 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 09.


Campo de Bagatelle

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 09.

Santos Dumont – escreve o jornalista – é um homem de imenso entusiasmo. Pressentimo-lo ao conversar com ele; e certificarmo-nos dessa verdade quando nos lembramos que diariamente ele arrisca a vida e sacrifica a juventude e a fortuna em holocausto à sua deusa alada”.

Adiante, a revista imprime, numa bela página dupla, a melhor fotografia que conheço do voo de Santos Dumont, de 220 metros, em 12 de novembro, no campo de Bagatelle. A cercadura dessa página, artisticamente elaborada, recorda as principais tentativas humanas para a conquista do ar, desde a do Padre Lana, no século dezessete! Encima-a o seguinte título, mais do que documentário: “Man flies at last. M. Santos Dumont’s triumphant flight of 231 yeards in his aeroplane” – “O homem voa, finalmente! A perfomance triunfal de 231 jardas, realizada pelo Sr. Santos Dumont no seu aeroplano”.

Sob a fotografia lemos: ”constituiu um trunfo essa experiência, visto que se efetuou realmente um voo; parece, agora, que a conquista do ar é apenas uma questão de tempo”. “The experiment was a triumph, for actual flightwas achieved; and it seems as thought it were only a matter of time for the conquest of the air to be accomplished…”

Transcrevo esta revista por ser a mais popular e importante de Londres, mas não houve jornal inglês de feição moderna que silenciasse o feito de Santos Dumont. Poderia transcrever dúzias de notícias.

Em 1908, quando Wilbur Wright voa em França, escreve ainda a Illustratred London News, nº 26 de setembro, pag. 428:

The brother Wright of aeroplane fame, Whome experiments in América were for só long wrapped in unfashonable mystery, seem now to have entered into a strenuous, though friendly, rivalry with one another as the two shall break greater number of records in public”.

Traduzo: “os irmãos Wright, de fama aviatória, cujas experiências na América se envolveram durante tanto tempo num impenetrável mistério, parecem ter agora iniciado uma extenua e amigável competição entre si, para verem qual dos dois quebrará publicamente maior número de recordes”. E o Graphic (Londres) sublinha muito discreto: “todo mundo sente que o êxito de Wilbur Writght é devido mais à sua perícia do que às qualidades do aparelho”. – “It os generally fel that his sucess is due more to his personal skill than to any qualities inherent in the machine”.

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GONDIN DA FONSECA


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 08.


GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 08.

Darei a palma aos irmãos Wright (respondo eu) no dia em que se descobrir que antes de 23 de outubro de 1906, um jornal qualquer do mundo, mesmo de Dayton, Ohio, notificou vagamente, entre os “faits-divers”, um pequenino voo mecânico desses figurões, autenticando-o com fotografia.

Exibam os Estados Unidos uma gravura apenas, uma única – mesmo falsa, tapeativa, mistificadora – impressa antes dessa data acerca de voos de Orville e Wilbur Wright em aeroplano com motor, e este meu livro será, definitivamente, afastado da circulação.

A melhor revista ilustrada da Inglaterra era, em 1906, como ainda hoje, a Illustrated London News. Quando Santos Dumont voa em França pela segunda vez, cobrindo 60 metros de percurso, ela estampa uma fotografia do “14-bis” (3 de novembro de 1906, pag. 629) sob o seguinte título: “One step nearer flyng: new machines to conquer the air. The first flight of a machine heavier than air. Santos Dumont winning the Archdeacon prize”. Notem: the first flight of a machine heavier than air – o primeiro voo de um aparelho mais pesado que o ar.

Sob a fotografia lê-se: “the only fotograf of a memorable event, showing the height attained” – “fotografia única de um acontecimento memorável, mostrando a altura atingida”.

Mais tarde, a 24 de novembro de 1906, divulga a Illustrated London News uma longa entrevista com Santos Dumont, proclamando: ”ha hoje um homem que se distanciou muito dos outros na conquista do ar. O seu nome está em todas as bocas”. Nem uma palavra acerca dos Wright.

Interrogado sobre os dirigíveis, Santos Dumont responde:

Podem satisfazer para fins bélicos mas, para esporte, são volumosos demais. Precisamos do aeroplano a fim de alcançarmos velocidades maiores. Atingiremos com ele, no futuro, 60 milhas por hora! Além de outras vantagens sobre os dirigíveis, tem o aeroplano a de ser bastante mais barato: o meu custou-me pouco, e o construí em breves meses.

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GONDIN DA FONSECA

 

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 07.

 

Acidente que matou o Tenente Selfridge

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 07.

L’approche de la mauvaise saison semble redoubler le zèle de nos aviateurs et la semaine que vient de s’écouler a vu encore de suoerbes envolés. Un fort grave accident est survenu malheureusement a l’aviateur américain Orville Wright. Le 17 de septembre, au cours d’expériences lesquelles il enlevait avec lui un passager, le lieutenant Selfridge, une hélice de l’appareil se brisa: l’aéroplane déséquilibré fut précipité sur le sol d’une hauteur de 25 mètres. Le lieutenante est mort quelques heures après la chute, Orville Wright a une jambe brisée, et est condamné au repos pour 40 jour au moins”.

Há 10 de outubro de 1908, escreve ainda La Nature: “Après quelques jours d’inactivité apparente, employés à modifier son appareil, Wilbur Wright a repris au Mans le cours de ses espériences. Le 3 octobre il a exécuté avec un passager, un vol de 51 m. 1/3; la vitesse réalisée fut d’environ 60 Km. 600 m. … La principale des transformations apportées à l’appareil a èté la suivante: les kélices ont été remplacées, par de nouvelles, dont les palettes ont une largeur double des premières. De son coté. Farman a repris également ses essais au camp de Châlons, et réussit de remarquables envolées, couvrant 42 kilomètres em “4 m. 32 s.”

Wilbur Wright modificou, pois, o seu aeroplano na Europa, a fim de poder voar melhor. Nos Estados Unidos, o irmão espatifou-se e matou numa queda o primeiro passageiro que levava – o Tenente Selfridge. Onde a pretendida vantagem desses cavalheiros sobre os aviadores europeus de 1908? Orville, quebrada uma perna, tem de ficar de cama 40 dias. Wilbur aproveita as experiências de Farman e de outros, para alterar o biplano com que apedreja o espaço arremessando-se de um trilho de madeira de 24 metros, graças a um peso colossal de 700 quilos suspensos num pilone e solto no momento da partida.

Retrucar-me-ão que cito apenas jornais franceses, e Santos Dumont vivia em França. Que argumento com “parti-pris”.

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 06.

     

Wilbur Wriaht

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 06.

Quando, em 1908, Wilbur Wright vem à França e se exibe em Hunaudières e Auvours, acaso o seu aeroplano sobe ao ar por si mesmo? Não. É ainda lançado em arremesso como uma flecha, por uma espécie de catapulta. Nota-se que já Santos Dumont experimentava o “14-bis”, “o n.º 15”, “o nº 19”, e projetava o “Demoiselle”, o primeiro aeroplano de turismo construído no mundo, em que obteve o recorde de velocidade de 96 quilômetros à hora, no dia 13 de setembro de 1909, indo de Saint-Cyr a Buc (8 quilômetros) em 5 minutos. E os Wright ainda não conseguiam erguer-se do chão pelos seus próprios recursos…

Há, porém, um argumento de que ele, doente, não se lembrou, e que ninguém entre nós repetiu depois de Ribas Cadava (Navegação Aérea, Anvers, 1911, págs. 244-245):

Na grande sessão do Aero-Clube de França, de dezembro de 1910, cujas atas existem, ficou indiscutivelmente firmado “ter sido Santos Dumont o primeiro aviador do universo que subiu em aeroplano com motor”.

Isto liquida a questão. E se ainda não liquidasse, liquidá-la-ia definitivamente a inscrição do marco de Bagatelle:

ICI

LE 12 NOVEMBRE 1906 SOUS LE CONTRÔLE DE

L’AÉRO-CLUBE DE FRANCE

SANTOS DUMONT

A ÉTABLI LES PREMIERS RÉCORDS

D’AVIATION GU MONDE

DURÉE 21s 1/5 DISTANCE 220 m.



Esta inscrição foi reproduzida fotograficamente pelo jornal O Estado de São Paulo, em seu número 23 de rotogravura, de 28 de novembro de 1931. E eu li no campo de Bagatelle, em Paris, aonde por várias vezes levei amigos a fim de a lerem também. Vejamos ainda: revelou por ventura o aeroplano de Wilbur Wright formidável superioridade sobre os que então se construíam em França? Não. Os seus primeiros vôos na Europa, realizados em agosto no Hipódromo de Hunaudiéres e controlados pelo Aero-Clube de França, cobriram distâncias variáveis, entre 10 e 30 metros. Apenas isso! O aparelho subia arremessado por uma catapulta através de um trilho… Era acaso melhor do que o dele o do seu irmão Orville, que ficara nos Estados Unidos? Também não. Reparem no que diz a excelente revista Le Nature, de 26 de setembro de 1908, pág. 1.844 (supplément):

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GONDIN DA FONSECA 

 

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