quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Grandes vultos: José do Patrocínio = Parte 10.

D. Pedro II

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
JOSÉ CARLOS DO PATROCÍNIO – PARTE 10.
Acusavam-no de conduta vacilante e volúvel, a ponto de se ver, em certas ocasiões, entre dois fogos de velhos companheiros. Silva Jardim o acoimava de traidor da causa republicana e André Rebouças de traidor da Princesa Isabel. Ao primeiro respondia que sempre foi republicano, mas os abolicionistas não poderiam esquecer sua gratidão à Redentora, motivo pelo qual não admitia o advento da república durante o governo de Isabel. Em relação a Pedro II, entretanto, não lhes ocultava suas antipatias.
Exilado como monarquista, após a proclamação da República, André Rebouças não perdoou o amigo o ter-se manifestado a favor da nova ordem. Sua defesa, fê-la Patrocínio num artigo intitulado “André Rebouças e eu”. Começou por dizer que Rebouças foi, sempre, “a alma de sua alma” e que nunca se permitira a liberdade de contrapor-lhe um pensamento”. Contudo, divergiam num ponto: “Rebouças era monarquista e ele republicano”.
Com a volta de D. Pedro II, muitos republicanos, ao contrário de Patrocínio, entendiam que se deviam respeito ao imperador e esperar por sua morte para a mudança do regime. Patrocínio, ao contrário, entendia que Isabel seria a salvação e suas esperanças estavam depositadas no terceiro reinado. Acreditava num futuro promissor para a Pátria dentro do coração daquela mulher que ouvia a voz do povo para governar. A frialdade de D. Pedro II o assustava.
A opinião de alguns de seus biógrafos de que, adepto franco do terceiro reinado, proclamada a república, não se pejou de passar de armas e bagagens para o novo regime, colocando as colunas da “Cidade do Rio” a serviço dos novos governantes, com as diárias a Deodoro, deve ser rebatida, pois foi o próprio Patrocínio quem, de maneira insofismável, procurou justificar sua atitude. Primeiro, não era ele um monarquista ou um republicano de
última hora. Era realmente, um dos fundadores do “Clube Republicano”. O homem dos primeiros momentos da causa, das primeiras reuniões da “chácara do Capitão Sena”. As linhas tortas escritas por sua conduta temperamental e aparentemente contraditória tinham, objetivamente, um ideal perfeito e retilíneo: a libertação dos escravos. A causa republicana não era sua. Ele seguia sob a bandeira dos amigos da velha casa de seu sogro: Quintino Bocaiuva, Silva Jardim, Lopes Trovão, Olavo Bilac, Benjamim Constant e outros. Não era ele culpado da pretendida mistura, num só corpo, de duas causas distintas. Houve, até, quem pretendesse precipitar a vinda da república sem a abolição, pretensão essa que encontrou inabalável oposição de Patrocínio: “mas, uma república com milhões de escravos?”
Continua…
S. SILVA BARRETO

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Grandes vultos: José do Patrocínio - Parte 09.


Apresentação alegórica no Teatro Lucinda em 13 de maio de 1902, comemorando a abolição da escravatura no Brasil
  GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
JOSÉ CARLOS DO PATROCÍNIO – PARTE 09.
Parece que o vaticínio estava escrito no livro do destino.
O libertador não admitia a ideia de proclamação da república antes da libertação e tinha conceitos lapidários como este: “que adianta uma república com milhões de escravos?”
Entretanto, os republicanos, tendo à frente Silva Jardim, não lhe perdoavam esta atitude. Certo dia, no auge da campanha, defrontaram-se os dois tribunos no Teatro Lucinda. Silva Jardim, com seu verbo inflamado, acusava-o de traição à causa: “o cativo de um beijo com que a princesa ameigara o filho”. Quando chegou a sua vez de falar, pronunciava palavras trôpegas, tímidas, num ambiente carregado. Seus amigos previram seu fracasso. Paula Nei, artimanhoso, misturou-se à multidão e soltou um desaforado aparte:
– “Cala a boca, negro!”
A injuria foi uma tremenda punhalada no coração do tribuno. Súbito o mesmo se recompõe e começa uma oração fulminante. Dos apupos que havia recebido antes, o povo passa às palmas. Sua vitória estava assegurada com o delírio final do povo o ovacionando sem cessar.
Na redação do jornal “Cidade do Rio”, o velho amigo que o aparteou, acabou confessando seu crime, que visou salvá-lo do abismo, pois, somente espicaçado, Patrocínio saía-se das enrascadas. Foi como se despertasse um titã.
Por causa do seu temperamento emocional, numa constante vivência de entrechoques, não conhecia amigos se estes se colocavam contra a causa redentora, sua obsessão. Tudo o mais era para ele secundário. Era tomado de um furor negro e quando lhe ressalvavam suas aparentes contradições, dizia aos amigos: “Sou filho de um padre com uma preta. Às vezes fala em mim a eloquência do padre; outras vezes, a língua da preta.”
Continua…
S. SILVA BARRETO

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Grandes vultos: José do Patrocínio - Parte 08.


GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
JOSÉ CARLOS DO PATROCÍNIO – PARTE 08.
A festa da abolição durou 8 dias. José do Patrocínio foi alvo das mais diversas manifestações. O povo, em delírio, o carregava, tirava-lhe, como “souvenir”, botões de sua casaca, pedacinho de sua camisa, chegando, segundo relato de historiadores, a deixá-lo em frangalhos. No fim da semana de delírios populares, foi ele convidado pela mocidade acadêmica de S. Paulo para receber da mesma a homenagem merecida onde foi recebido em triunfo com a maior festa que a pauliceia tributava a um homem até então. “Foi carregado, abraçado e beijado pelos moços em delírio”. Conduzido ao Grande Hotel, onde todos esperavam ouvir sua palavra. Contudo, o herói do dia estava indisposto e cansado de tanta festa em que ele era a principal figura. Havia pronunciado naqueles dias mais de cem discursos e estava esgotado. Ao começar seu discurso, embora belo, arrastava-se sem um fecho de ouro, tornando-se interminável e monótono quando, então, o conhecido e notável satírico da época, Herculano de Freitas, puxou-lhe a aba da sobrecasaca e lhe sussurrou:
– “Fala em José Bonifácio… e acaba com isto”.
Patrocínio recebeu a sugestão de Herculano como uma tábua de salvação e se saiu muito bem, terminando sua oração por convidar o povo a ir com ele ao cemitério da Consolação e rezar pela liberdade. Este final salvou o resto do discurso, pois o povo, eletrizado, carregou o tribuno até o cemitério. Terminada a fase da abolição, Patrocínio se colocou em posição discreta, pois entendia que o terceiro reinado, com a Princesa Redentora, se tornara um imperativo de gratidão do povo brasileiro a Isabel, que lhe dera a lei Áurea, ainda que advertida por Cotegipe de que a libertação significaria a queda da coroa. Patrocínio colocou-se, então, numa espécie de dualismo político que seus amigos não compreendiam e seus inimigos criticavam. Era um dos primeiros republicanos, mas, ao mesmo tempo, grato a sucessora de D. Pedro II. Viu-se rodeado de inimigos ferozes, que não o perdoavam. João Marques, um de seus maiores amigos, na memorável noite de 13 de maio, em que o povo, alta madrugada, gritava pelas ruas incessantemente, seu nome, “Patrocínio!” “Patrocínio!”. “Viva Patrocínio”, vaticinou enfaticamente:
– “Que belo dia para morreres José! Nunca mais encontrarás outro igual!” e, completando seu pensamento, terminou:
– “Vais viver, meu velho, e vais para a política… e aquilo emporcalha, meu amigo!”.
Continua…
S. SILVA BARRETO

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Grandes vultos: José do Patrocínio Parte 07.

Princesa Isabell




GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
JOSÉ CARLOS DO PATROCÍNIO – PARTE 07.
Patrocínio, ignorando em sua extensão a campanha abolicionista em São Paulo, dizia, injustamente na “Gazeta da Tarde” de 1883, obediente a seu radicalismo sem tréguas: Ceará é o herói da abolição. São Paulo é o castelo forte do hediondo escravagismo”. Ressaltam seus biógrafos que a admiração de Patrocínio pelo Ceará nasceu da coragem dos jangadeiros, que se opunham a servir-se de instrumento aos núcleos escravocratas do sul, quando São Paulo e Minas faziam o comércio ostensivo desta mercadoria humana, pleiteando o alargamento do cativeiro em benefício de suas fazendas. Contudo, os paulistas José Bonifácio, com seu projeto de lei para extinguir o comércio escravo, Paulo Eiró, com seu drama “Sangue Limpo” contra a escravidão, Luís Gama, Antônio Bento, Raul Pompéia, André Rebouças e outros formavam grupos ativos na luta pela libertação, que não se pode ignorar. Há que sobressair, também, a libertação dos escravos do Largo de São Francisco.
Patrocínio tinha certa razão de mágoa contra o Sul porque o apelidaram de “preto cínico” e puseram sua cabeça a prêmio. Este aspecto da conduta radical de Patrocínio levou-o, na época, à prática de muitas injustiças, inclusive com amigos. Seu passionalismo não admitia ideias contrárias á abolição, assim como sua gratidão aos que “aquinhoaram” a Pátria com a chamada ”dádiva” da libertação, chegava às raias do dramático como aconteceu com à Princesa Isabel, por ele alcunhada de “Redentora”. No dia 13 de maio de 1888, José do Patrocínio, chegava aos pés de Isabel, carregado pelo povo, e, quando subiu as escadeiras do Paço, onde a mesma se encontrava após ter assinada a Lei Áurea, num de seus arroubos felizes, disse-lhe: “Minha alma, de joelhos, sobe as escadarias deste paço para beijar vossos pés”. Às palavras seguiu-se o gesto, tendo sido, então, obstado pelo Conde D’Eu, que lhe pôs as mãos aos ombros e disse: “Não exagere, Sr. Patrocínio, não exagere...”
Continua…
S. SILVA BARRETO


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Grandes vultos: José do Patrocínio - Parte 06.


GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
JOSÉ CARLOS DO PATROCÍNIO – PARTE 06.
Antônio Bento entrava, por sua vez, na luta, criando organizações de escravos de caráter ofensivo como os “Caifazes” que promoviam a sedição nas lavouras de café e tramavam as fugas, cada vez maiores, protegidas pelos ferroviários. Segundo relato de um historiador “não havia trem de passageiros no qual um negro fujão não encontrasse onde se esconder, como não havia estação onde diretamente alguém o não recebesse e orientasse”, apesar dos prêmios publicados em editais para quem capturasse escravo fugido”
Vários quilombos domésticos foram instituídos, onde se homiziavam os escravos após as fugas. Distinguiram-se neste mister várias famílias ilustres cariocas e paulistas. De São Paulo os escravos eram remetidos para o Rio, por Antônio Bento, Raul Pompéia, Luís Murat, Gaspar da Silva e a remessa era precedida de um aviso senha: Segue Bagagem. Embarcados na E. F. Central do Brasil, eram instruídos para, na estação do Rio, dirigir-se a um cavalheiro que trouxesse à lapela uma camélia branca, dando-lhe a senha “Raul”, obtendo como resposta “Serpa”, quando então poderiam julgar-se salvos.
A população escrava ultrapassava a casa do milhão num total de 14 milhões de brasileiros entre brancos e pretos.
Em toda parte formavam-se os famosos quilombos, organizações de negros fugidos, aperfeiçoadas dos rudimentares quilombolas, iniciadas nos primeiros lustres do século XVIII como pioneiros na luta pela libertação dos escravos. Dos primeiros destacaram-se por sua organização social perfeita o “Quilombo do Jabaquara”, em Santos e o dos “Palmares”, no Nordeste, dirigido pelo célebre rei Zumbi. O historiador Oiliam José chega a arrolar, em Minas, a formação de 9 quilombos, além de outros mais, de pequena expressão, pululando por todo o território mineiro.
Entrosava-se na campanha o grande Rui Barbosa, amigo íntimo de José do Patrocínio. Em seu célebre discurso no comício do Teatro Politeama, promovido pela Confederação Abolicionista em 28 de agosto de 1887, dizia: “O Partido Liberal belga dispunha-se a derramar sangue, para obstar a inundação ultramontana. Os abolicionistas brasileiros lutam apenas com a força persuasiva da palavra contra a escravidão. E querem sufocá-los! O Império inteiro comove-se; os “meetings” reproduzem-se até nas capitais mais poderosas do escravismo, como Campinas; e o trono parece insensível às ansiedades do País.
Continua…
S. SILVA BARRETO
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