quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 09.


Campo de Bagatelle

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 09.

Santos Dumont – escreve o jornalista – é um homem de imenso entusiasmo. Pressentimo-lo ao conversar com ele; e certificarmo-nos dessa verdade quando nos lembramos que diariamente ele arrisca a vida e sacrifica a juventude e a fortuna em holocausto à sua deusa alada”.

Adiante, a revista imprime, numa bela página dupla, a melhor fotografia que conheço do voo de Santos Dumont, de 220 metros, em 12 de novembro, no campo de Bagatelle. A cercadura dessa página, artisticamente elaborada, recorda as principais tentativas humanas para a conquista do ar, desde a do Padre Lana, no século dezessete! Encima-a o seguinte título, mais do que documentário: “Man flies at last. M. Santos Dumont’s triumphant flight of 231 yeards in his aeroplane” – “O homem voa, finalmente! A perfomance triunfal de 231 jardas, realizada pelo Sr. Santos Dumont no seu aeroplano”.

Sob a fotografia lemos: ”constituiu um trunfo essa experiência, visto que se efetuou realmente um voo; parece, agora, que a conquista do ar é apenas uma questão de tempo”. “The experiment was a triumph, for actual flightwas achieved; and it seems as thought it were only a matter of time for the conquest of the air to be accomplished…”

Transcrevo esta revista por ser a mais popular e importante de Londres, mas não houve jornal inglês de feição moderna que silenciasse o feito de Santos Dumont. Poderia transcrever dúzias de notícias.

Em 1908, quando Wilbur Wright voa em França, escreve ainda a Illustratred London News, nº 26 de setembro, pag. 428:

“The brother Wright of aeroplane fame, Whome experiments in América were for só long wrapped in unfashonable mystery, seem now to have entered into a strenuous, though friendly, rivalry with one another as the two shall break greater number of records in public”.

Traduzo: “os irmãos Wright, de fama aviatória, cujas experiências na América se envolveram durante tanto tempo num impenetrável mistério, parecem ter agora iniciado uma extenua e amigável competição entre si, para verem qual dos dois quebrará publicamente maior número de recordes”. E o Graphic (Londres) sublinha muito discreto: “todo mundo sente que o êxito de Wilbur Writght é devido mais à sua perícia do que às qualidades do aparelho”. – “It os generally fel that his sucess is due more to his personal skill than to any qualities inherent in the machine”.

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GONDIN DA FONSECA


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 08.


GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 08.

Darei a palma aos irmãos Wright (respondo eu) no dia em que se descobrir que antes de 23 de outubro de 1906, um jornal qualquer do mundo, mesmo de Dayton, Ohio, notificou vagamente, entre os “faits-divers”, um pequenino voo mecânico desses figurões, autenticando-o com fotografia.

Exibam os Estados Unidos uma gravura apenas, uma única – mesmo falsa, tapeativa, mistificadora – impressa antes dessa data acerca de voos de Orville e Wilbur Wright em aeroplano com motor, e este meu livro será, definitivamente, afastado da circulação.

A melhor revista ilustrada da Inglaterra era, em 1906, como ainda hoje, a Illustrated London News. Quando Santos Dumont voa em França pela segunda vez, cobrindo 60 metros de percurso, ela estampa uma fotografia do “14-bis” (3 de novembro de 1906, pag. 629) sob o seguinte título: “One step nearer flyng: new machines to conquer the air. The first flight of a machine heavier than air. Santos Dumont winning the Archdeacon prize”. Notem: the first flight of a machine heavier than air – o primeiro voo de um aparelho mais pesado que o ar.

Sob a fotografia lê-se: “the only fotograf of a memorable event, showing the height attained” – “fotografia única de um acontecimento memorável, mostrando a altura atingida”.

Mais tarde, a 24 de novembro de 1906, divulga a Illustrated London News uma longa entrevista com Santos Dumont, proclamando: ”ha hoje um homem que se distanciou muito dos outros na conquista do ar. O seu nome está em todas as bocas”. Nem uma palavra acerca dos Wright.

Interrogado sobre os dirigíveis, Santos Dumont responde:

– Podem satisfazer para fins bélicos mas, para esporte, são volumosos demais. Precisamos do aeroplano a fim de alcançarmos velocidades maiores. Atingiremos com ele, no futuro, 60 milhas por hora! Além de outras vantagens sobre os dirigíveis, tem o aeroplano a de ser bastante mais barato: o meu custou-me pouco, e o construí em breves meses.

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GONDIN DA FONSECA

 

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 07.

 

Acidente que matou o Tenente Selfridge

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 07.

“L’approche de la mauvaise saison semble redoubler le zèle de nos aviateurs et la semaine que vient de s’écouler a vu encore de suoerbes envolés. Un fort grave accident est survenu malheureusement a l’aviateur américain Orville Wright. Le 17 de septembre, au cours d’expériences lesquelles il enlevait avec lui un passager, le lieutenant Selfridge, une hélice de l’appareil se brisa: l’aéroplane déséquilibré fut précipité sur le sol d’une hauteur de 25 mètres. Le lieutenante est mort quelques heures après la chute, Orville Wright a une jambe brisée, et est condamné au repos pour 40 jour au moins”.

Há 10 de outubro de 1908, escreve ainda La Nature: “Après quelques jours d’inactivité apparente, employés à modifier son appareil, Wilbur Wright a repris au Mans le cours de ses espériences. Le 3 octobre il a exécuté avec un passager, un vol de 51 m. 1/3; la vitesse réalisée fut d’environ 60 Km. 600 m. … La principale des transformations apportées à l’appareil a èté la suivante: les kélices ont été remplacées, par de nouvelles, dont les palettes ont une largeur double des premières. De son coté. Farman a repris également ses essais au camp de Châlons, et réussit de remarquables envolées, couvrant 42 kilomètres em “4 m. 32 s.”

Wilbur Wright modificou, pois, o seu aeroplano na Europa, a fim de poder voar melhor. Nos Estados Unidos, o irmão espatifou-se e matou numa queda o primeiro passageiro que levava – o Tenente Selfridge. Onde a pretendida vantagem desses cavalheiros sobre os aviadores europeus de 1908? Orville, quebrada uma perna, tem de ficar de cama 40 dias. Wilbur aproveita as experiências de Farman e de outros, para alterar o biplano com que apedreja o espaço arremessando-se de um trilho de madeira de 24 metros, graças a um peso colossal de 700 quilos suspensos num pilone e solto no momento da partida.

Retrucar-me-ão que cito apenas jornais franceses, e Santos Dumont vivia em França. Que argumento com “parti-pris”.

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GONDIN DA FONSECA

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 06.

     

Wilbur Wriaht

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 06.

Quando, em 1908, Wilbur Wright vem à França e se exibe em Hunaudières e Auvours, acaso o seu aeroplano sobe ao ar por si mesmo? Não. É ainda lançado em arremesso como uma flecha, por uma espécie de catapulta. Nota-se que já Santos Dumont experimentava o “14-bis”, “o n.º 15”, “o nº 19”, e projetava o “Demoiselle”, o primeiro aeroplano de turismo construído no mundo, em que obteve o recorde de velocidade de 96 quilômetros à hora, no dia 13 de setembro de 1909, indo de Saint-Cyr a Buc (8 quilômetros) em 5 minutos. E os Wright ainda não conseguiam erguer-se do chão pelos seus próprios recursos…

Há, porém, um argumento de que ele, doente, não se lembrou, e que ninguém entre nós repetiu depois de Ribas Cadava (Navegação Aérea, Anvers, 1911, págs. 244-245):

Na grande sessão do Aero-Clube de França, de dezembro de 1910, cujas atas existem, ficou indiscutivelmente firmado “ter sido Santos Dumont o primeiro aviador do universo que subiu em aeroplano com motor”.

Isto liquida a questão. E se ainda não liquidasse, liquidá-la-ia definitivamente a inscrição do marco de Bagatelle:

ICI

LE 12 NOVEMBRE 1906 SOUS LE CONTRÔLE DE

L’AÉRO-CLUBE DE FRANCE

SANTOS DUMONT

A ÉTABLI LES PREMIERS RÉCORDS

D’AVIATION GU MONDE

DURÉE 21s 1/5 DISTANCE 220 m.



Esta inscrição foi reproduzida fotograficamente pelo jornal O Estado de São Paulo, em seu número 23 de rotogravura, de 28 de novembro de 1931. E eu li no campo de Bagatelle, em Paris, aonde por várias vezes levei amigos a fim de a lerem também. Vejamos ainda: revelou por ventura o aeroplano de Wilbur Wright formidável superioridade sobre os que então se construíam em França? Não. Os seus primeiros vôos na Europa, realizados em agosto no Hipódromo de Hunaudiéres e controlados pelo Aero-Clube de França, cobriram distâncias variáveis, entre 10 e 30 metros. Apenas isso! O aparelho subia arremessado por uma catapulta através de um trilho… Era acaso melhor do que o dele o do seu irmão Orville, que ficara nos Estados Unidos? Também não. Reparem no que diz a excelente revista Le Nature, de 26 de setembro de 1908, pág. 1.844 (supplément):

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GONDIN DA FONSECA 

 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Grandes vultos: Santos Dumont - Parte 05.

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES

SANTOS DUMONT – Parte 05.

Há nesta argumentação, um erro contra o argumentador. O prêmio de São Luís era de 200.000 dólares, o que correspondia a um milhão de francos e não a 500 mil. Esqueceu-se Santos Dumont de abordar vários pontos. No artigo da revista Century Magazine, adiante referido, declaram os irmãos Wright ter convidado, em 1904, representantes de todos os jornais de Dayton (Ohio) para assistirem a um voo seu: vieram doze repórteres, e o aeroplano não voou; regressaram no dia seguinte, a pedido, e novo fracasso presenciaram. “Então (escrevem os homens) ignorando a diferença essencial entre dirigíveis e aeroplanos, nunca mais os jornalistas prestaram atenção ao que fazíamos.” Ora, em 1904, não havia no mundo aprendiz de impressor (quanto mais repórter) que não diferenciasse um aeroplano de um dirigível. Acrescentaram, ainda, os dois cavalheiros, terem cessados as suas experiências de voo desde 05 de outubro de 1905 a dias de maio de 1908. Tudo muito confuso… O sucesso dos Wright, em Paris, deveu-se, principalmente, a duas causas: 1.º) a serem exímios no voo planado, o que não sucedia com Santos Dumont; 2.º) a disporem de uma propaganda tão rica e tão boa que chegou a persuadir os franceses da vantagem apresentada pela máquina ianque em não possuir rodas! Ora, a falta de rodas só a prejudicava. Tanto isso era verdade que, em Roma, eles mandaram aplicar-lhes. E hoje todos os aparelhos aterram e sobem servindo-se de rodas – como o velho 14-bis. Observem que o aeroplano de Santos Dumont, em 1906, nada tinha de semelhante ao dos Wright; que os Wright não mostraram, na época, o aeroplano em que juraram ter voado em 1903; e que os modernos aparelhos, a rigor, evoluíram do tipo “Demoiselle” 1907-1909, de Santos Dumont, o qual, por sua vez, evoluiu do 14-bis. E o 14-bis? Esse, conforme atrás se disse, evoluiu do papagaio celular de Hargrave, que se inspirou no papagaio de brinquedo das crianças.

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GONDIN DA FONSECA

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