quarta-feira, 27 de julho de 2016

Grandes vultos: Visconde de Mauá - Parte 07.






GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA (MAUÁ) - PARTE 07.
Esta narração, que representa uma exposição muito abreviada e incompleta das atividades de Mauáno domínio econômico, serve para dar ideia do vulto das atividades de Irineu Evangelista de Souza, da sua capacidade realizadora e dos múltiplos e variados empreendimentos em que se envolveu. Alguns deles, somente os mais expressivos, como o estabelecimento da Ponta da Areia, as estradas de ferro, a iluminação do Rio de Janeiro, o cabo submarino e a navegação do Rio Amazonas seriam suficientes para consagrar-lhe o nome, para colocá-lo como verdadeiro precursor de nossa industrialização, como o homem de maior iniciativa em sua época e um dos maiores em todos os tempos entre nós. Daí o lugar ímpar que tem em nosso passado e a memória reverenciada que possui nos dias de hoje.
A extraordinária figura de Mauá ocupa, inegavelmente, um lugar conspícuo em nossa história e um dos de maior destaque entre seus contemporâneos. Isso se deve ao fato de ter encarnado uma das tendências da sociedade do seu tempo, a tendência capitalista, que consubstanciava a aspiração mais progressista da época, a representativa do futuro. Daí, provavelmente, as vicissitudes pela qual passou e as controvérsias que ainda agora provoca.
Com efeito, em meados do século passado o capitalismo, como forma predominante de regime socioeconômico na Europa e nos Estados Unidos, caminhava a passos acelerados para seu apogeu, que atinge ao findar a centúria, com a plena expansão de sua capacidade realizadora. O mundo foi todo dividido e submetido aos seus interesses, efetuando-se a grande divisão internacional do trabalho, com um grupo de países industriais produzindo e exportando artigos manufaturados e outro servindo de mercado para esses produtos e de fornecedores de matérias-primas. Não há dúvida de que a maior parte da riqueza internacional se concentrava nos países industriais, que dirigiam por isso mesmo toda a política mundial, proporcionando maior bem-estar às suas populações.
Mauá com sua inteligência aguda e seu traquejo nos negócios que exercia, sem nenhuma ligação com o estado de coisas aqui estabelecidos, compreendeu imediatamente essa situação e viu as possibilidades promissoras que se lhe apresentavam nesse campo de atividades. Daí sua aspiração industrialista, que adquiriu forma concreta em sua primeira viagem à Europa, conforme vimos antes. Isso explica o papel que representou em nossa história e o ideal capitalista que personificou. Assim se explica igualmente toda a atividade prodigiosa que desempenhou, com admirável tenacidade.
Realmente Mauá foi a mais elevada personificação capitalista que tivemos na segunda metade do século XIX. Por isso realizou consideráveis negócios, ganhou muito dinheiro, realizou empreendimentos notáveis, mas, para isso pleiteou e obteve favores administrativos, tornando-se rico e poderoso. Entretanto, foi por causa disso que pode levar avante as extraordinárias iniciativas, obras de intenso vulto, que beneficiaram realmente seu país, melhorando inegavelmente as condições de vida de seu povo, estimulando de modo incontestável as condições gerais de progresso. Isso tudo, no entanto, ele não poderia ter realizado se não tivesse sido um capitalista, ou seja, um homem de negócios, ganhando dinheiro, fazendo transações, aplicando e movimentando capitais. Mas isso também é que explica sua posição política e social como membro do Clube de Reforma, o centro liberal mais avançado da época, de onde saiu mais tarde o Partido Republicano, sua ligação e ajuda mesmo que prestou aos republicanos farroupilhas, sua simpatia pelo abolicionismo, assinando contratos de trabalho em que se obrigava a não empregar trabalhadores escravos nos serviços de suas obras.
Continua...
Heitor Ferreira de Lima

MEUS QUERIDOS AMIGOS

Hoje vamos iniciar uma pausa para dar uma olhada na saúde, fazer alguns exames de rotina, afinal, a velha carcaça precisa de manutenção. Acredito que em breve estaremos de volta, quando na oportunidade iniciaremos a retribuição àqueles que nos honraram com as suas preciosas visitas. 

Até a volta e um grande beijo no coração de cada um de vocês.

   
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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Grandes vultos: Visconde de Mauá - Parte 06.

Estação Ferroviária Dom Pedro II - E.F.Central do Brasil _ Rio de Janeiro - RJ 1895


GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA (MAUÁ) - PARTE 06.
A segunda estrada de ferro organizada entre nós foi a Recife and São Francisco Railway Company, que constituiu a primeira inversão inglesa em ferrovias no Brasil. Mauá interessou-se por ela, subscrevendo numerosas ações. Isso influiu no Stock Exchange de Londres para a subscrição do capital, que importou em 1.800.000 libras.
A terceira ferrovia inaugurada no país foi a D. Pedro II, atual Central do Brasil, para a qual Mauá concorreu, não somente abrindo mão, sem indenização, do privilégio da zona, que era seu, como também redigindo-lhe os Estatutos, sendo o seu banco escolhido para recolher os fundos dos acionistas. Também evitou um rompimento entre a Diretoria e o empreiteiro, o que constituiria desmoralização para nosso país, caso se efetuasse. O quarto empreendimento foi a Bahia and São Francisco Raillway Company, organizada em Londres, por iniciativa de J. P. Alves Branco, amigo de Mauá e que por essa razão inverteu nele alguns milhares de libras.
A quinta ferrovia organizada entre nós foi a Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, mais tarde São Paulo Railway, hoje usando o nome primitivo. Mauá não só obteve a concessão como criou a companhia em Londres, sendo ainda seu verdadeiro empreiteiro, perdendo nela mais de 416.000 libras, devido à chicana dos Tribunais nacionais promovida pela São Paulo Railway, sendo a questão transferida para o tribunal inglês que decidiu tratar-se de causa prescrita. A demanda levara mais de dez anos. Esta foi a derradeira luta de Mauá, já depois de decretada a sua falência e com cujo produto esperava atender aos seus credores.
A última estrada de ferro em que Mauá se envolveu foi a estrada de Ferro Rio-Verde, conhecida depois por Minas-Rio, o que ocorreu quando sofreu a moratória, em 1875. Couto de Magalhães, seu companheiro e sócio no empreendimento, quis que o velho   homem de negócios participasse da vantagem aí advinda, porém Mauá recusou a gentileza do amigo, alegando que sua consciência não lhe permitia partilhar de benefícios em que seus serviços não estivessem representados adequadamente. Obra de não menor importância foi a navegação do Rio Amazonas, empreendida em 1850, que o próprio Mauá considerava de elevado alcance, pois tratava-se de experiência que poderia falhar, de resultados que podiam não corresponder às previsões, levada a efeito numa época em que ninguém acreditava nela. Graças a isso, em 8 anos as rendas gerais e provinciais do Amazonas quintuplicaram e as do Pará triplicaram, ao passo que a Companhia do Amazonas distribuía dividendos de 12% . A navegação se efetuava por 580 léguas – 3.828 quilômetros do Rio Amazonas e por mais 200 léguas – 1.320 quilômetros do Rio Tocantins, além de mais outros cursos d'água da região. Agassis elogiou os serviços dos navios, ressaltando a comodidade e limpeza que apresentavam e a alimentação excelente, embora pouco variada.
Outra face não menos interessante na vida de Mauá, é a do banqueiro. Já aludimos que em 1851 fundou ele o Banco do Brasil, o segundo desse nome entre nós, a fim de aproveitar as disponibilidades que a cessação do tráfico negreiro propiciava. Em 1853 esse estabelecimento de crédito faz fusão com outro existente, o Banco do Comércio, criando-se o Banco do Brasil, em sua terceira fase, em 1854. Poucos meses depois, Mauá afasta-se dele, fundando a Casa Bancária Mauá, Mac Gregor & Cia. Surgindo também o Banco Rural e Hipotecário. Esse banco prospera rapidamente, por isso, já em 1867 possui filiais na Inglaterra, na França, em Nova York, no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Uruguai e na Argentina. Converte-se assim no maior estabelecimento do gênero do país, com renome no mundo inteiro, de tal modo que o herói de Júlio Verne, em sua Volta ao Mundo em 80 dias, Mr. Foggs, tem conta no banco de Mauá.
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Heitor Ferreira de Lima
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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Grandes vultos: Visconde de Mauá - Parte 05.


    
GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA (MAUÁ) - PARTE 05.
Empreendimento de vulto foi igualmente a Companhia de Bondes Jardim Botânico, que primeiramente fez trafegar uma pequena estrada de ferro para a Tijuca e posteriormente inaugurou o bonde de burros, sobre trilhos, para Botafogo. Conquanto não lhe merecesse confiança, ajudou-a a manter e mais tarde passou-a à primeira empresa norte-americana a se instalar entre nós, a Botanical Garden Rail Road Company, que prosperou e se expandiu amplamente. Para Alberto de Faria esta foi a melhor mina de ouro que Mauá deixou escapar, porque cada conto de réis empregado na construção dos primeiros trilhos até o Largo do Machado valeriam em 1926, em benefícios acumulados, 70 contos, ou se fossem empregados em terrenos em Copacabana, para os quais Mauá olhava com clarividência, o lucro teria sido de três a cinco vezes mais ainda. Este exemplo frutificou em organizações semelhantes em Bruxelas, Lisboa e Montevidéu. Foi um amigo de Mauá, seu companheiro no Clube da Reforma, a organização política liberal da época, Francisco Sabino de Freitas Reis, que criou uma empresa de bondes em Paris.
Constituiu obra de Mauá a dessecação do Canal do Mangue, do Rio de Janeiro, que era então um vasto pântano, extenso foco de infecções e exalações desagradáveis, viveiro de mosquitos. Interveio ainda Mauá na Companhia Fluminense de Transporte, que teve a concessão, por doze anos, para o uso de carros de quatro rodas para o transporte de café e outros produtos. O abastecimento de água no Rio de Janeiro foi em parte obra de Mauá, pois, mandou proceder aos estudos, gastando em parte dinheiro do seu próprio bolso, mas a concessão foi obtida por um recomendado do banqueiro inglês, Rothschild, arcando assim Mauá com os prejuízos.
Mauá teve grande destaque, igualmente, na instauração e desenvolvimento dos serviços de comunicações e transportes.
Descoberto em 1837, o telégrafo elétrico só em 1857 ligava os Estados Unidos à Europa. Entretanto em 1852 já ele ligava a Corte a Petrópolis. Mas foi a Mauá que coube a glória da introdução do cabo submarino no Brasil. Embora tenha obtido a concessão para si em 1872, deu-a – é o termo verdadeiro, porque vendeu-a por uma libra, já que não podia doá-la – a uma empresa estrangeira, a Brazilian Submarine Telegrapf Company, “sem ao menos reservar a vantagem mínima de ter direito a telegramas gratuitos” – observa Claudio Ganus. Tornou-se assim possível, em 22 de junho de 1874, o Imperador Pedro II expedir, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, mensagens congratulatórias ao Papa Pio IX, à Rainha Vitória, ao Imperador Guilherme I, ao marechal Mac Mahon, ao General Grant, e outros chefes de Estado e já no dia seguinte recebia as respostas. Em 1873 esses serviços foram transferidos à Western Brazilian Telegraph Co. Ltd. A única vantagem conseguida por Mauá foi o título de visconde, que outro visconde, o do Rio Branco, lhe trazia como reconhecimento, da parte do Imperador, pelos serviços prestados. Mais tarde tais serviços foram estendidos ao Uruguai, Argentina e Estados Unidos. Alberto de Faria acha que esta obra é a que mais evidencia o patriotismo e o depreendimento de interesse de Mauá.
Vejamos agora o capítulo referente às estradas de ferro, não menos importante nas realizações de Mauá, em sua obra de pioneirismo.
Em meados do século XIX, embora a nossa produção agrícola, principalmente o café, já atingisse ponderável volume, envolvendo a Corte, o Rio de Janeiro, São Paulo e parte de Minas Gerais, não possuíamos estradas que prestassem e a prevenção era grande contra as ferrovias. Assim, Bernardo Pereira de Vasconcelos achava que uma estrada de ferro transportaria num dia todo a produção, passando o resto do tempo ociosa. O Marquês de Paraná dizia que estrada de ferro não era cabrito para subir morros, referindo-se ao nosso território montanhoso. Mauá, como precursor que foi, construiu a primeira estrada de ferro em nosso país, inaugurando o trecho entre o porto da Estrela e a raiz da Serra de Petrópolis em 30 de abril de 1854, custeado com seu próprio dinheiro. Recebeu, nessa ocasião, seu primeiro título nobiliárquico, o de barão. Na solenidade de inauguração perante Pedro II, pronunciou discurso que se tornou famoso, auspiciando outras estradas cortando o pais em todas as direções, tornando o Rio de Janeiro um centro de comércio, indústria e civilização, que nada tenha que invejar a ponto algum do mundo.
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Heitor Ferreira de Lima
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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Crandes vultos: Visconde de Mauá - Parte 04.



GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA (MAUÁ) - PARTE 04.
Dois fatos ocorridos a curto espaço de tempo um do outro determinaram a concretização da aspiração de há muito acalentada: a nova tarifa aduaneira da reforma Alves Branco, de 1844 e a extinção do tráfico africano em 1850. Com a tarifa Alves Branco, os direitos sobre a maioria das mercadorias passaram a 30% (antes eram de 15%) e para outras essa majoração variava de 40% a 60%. Embora ainda fossem moderadas em relação a certas nações europeias, já permitia a instalação de manufaturas, a fim de utilizar a abundante matéria-prima existente entre nós, lembrado pelo próprio ministro, o que denota que seu intuito não era apenas fiscal, como por vezes se alega. Isso leva-o a adquirir imediatamente o estaleiro da Ponta da Areia e a inverter nele quatro vezes o capital no primeiro ano, transformando-o no primeiro estabelecimento do gênero no país. Com a suspensão do tráfico africano, calcula-se que 16.000 contos, quantia avultada para a época, refluiu sobre a economia interna, propiciando o desenvolvimento de nossa atividade comercial e industrial, sofrendo o mercado uma pletora de capitais. Mauá, com sua argucia proverbial, aproveitou-se logo da ocasião, fundando o seu primeiro banco em 1851, com capital de 10.000 contos.
Ponta de Areia, com as inversões feitas, transformou-se completamente. O número de operários passou de 300 para 1.000, contando as seguinte seções: fundição de ferro, de bronze, seção de mecânica, ferraria, serralheria, caldeiraria de ferro, construção naval, modeladores, aparelho, velame e galvanismo. Lá se construíram tubos para encanamento de água, caldeiras para máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas, galgas para fábricas de pólvoras, molinetes e outras obras mais, além de 72 navios, dos quais 15 para a marinha nacional, que prestaram relevantes serviços na Guerra do Paraguai. De tal modo se destaca esse estabelecimento industrial, que o ministro do Império, em seu relatório de 1850, lhe faz elogio, considerando-o “o mais importante estabelecimento fabril do Império”. Em 1857 um incêndio destruiu quase que completamente o estabelecimento, inutilizando valiosos moldes e modelos, que o levou a contrair um empréstimo para salvá-lo. Um biógrafo de Mauá afirma que uma testemunha lhe dissera poder “garantir que os modelos e moldes de construção naval da Ponta da Areia foram criminosamente inutilizados por mãos estrangeiras”. Já em 1849 começa a pressão para reforma da tarifa Alves Branco, o que se deu em 1857, baixando-se as tarifas sobre os produtos de importação, entre eles os artigos de ferros, chegando ao cúmulo, como disse Mauá, de permitir a entrada de navios a vapor e a vela, livre de direitos, o que tornou naturalmente impossível a concorrência do similar nacional. As encomendas do governo também começaram a escassear, o que acarretou a ruína do estabelecimento, com prejuízo superior a 1 mil contos, quantia que antes representava o seu lucro. Terminava desse modo a primeira tentativa séria da implantação da indústria naval no Brasil.
Iniciativa importante de Mauá foi também a aquisição, por 500 contos, da Cia. Luz Esteárica, fundada pelo francês Lajou, sendo consideravelmente ampliada, que mais tarde passou para as mãos de industriais brasileiros do qual faz parte o Moinho Luz. Fundou Mauá uma Companhia de Curtumes, uma Companhia de Diques Flutuantes, a Companhia Pastoril Agrícola e Industrial, bem como outras empresas, de que nos ocuparemos posteriormente.
Mas estas, que acabamos de mencionar, sobretudo o estaleiro da Ponta da Areia, atestam inegavelmente a vocação industrial de Mauá e bastam para colocá-lo como verdadeiro pioneiro nesse campo, em nosso país.
No domínio dos melhoramentos urbanos, a atuação de Mauá é das mais relevantes. Assim, na noite de 25 de março de 1854, graças aos seus esforços, várias ruas e praças do Rio de Janeiro apareceram feericamente iluminadas, conforme os jornais do tempo, porque os velhos lampiões de azeite dos tempos coloniais eram substituídos por iluminação a gás, a grande novidade da época. Era uma realização sua exclusivamente, pois, como escreve em Exposição aos Credores, “foi só depois de 25 de março de 1854, em que a luz do gás mostrou o seu brilho em algumas ruas e praças da capital, que pude conseguir a organização da companhia, sendo apenas subscrita cerca de metade das ações; e ainda assim, em condições onerosas para mim”. Do capital primitivo de 1.200 contos, passou para 2.000 contos em 1858. mais tarde, ao organizar-se a Rio de Janeiro Gaz Company Ltd., com capital de 600.000 libras, recebeu Mauá o triplo do valor primitivo e mais 120 libras pela concessão, proporcionando-lhe um lucro de 25.000 libras, sendo um dos poucos negócios felizes de Mauá – assinala Alberto de Faria.
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Heitor Ferreira de Lima
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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Grandes vultos: Visconde de Mauá - Parte 03.

O Estabelecimento de Fundição e Estaleiros Ponta da Areia foi uma das primeiras industrias de construção naval do Brasil, sendo criada pelo Barão de Mauá.

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA (MAUÁ) - PARTE 03.
Em seguida deve-se mencionar o banqueiro e o financista, fundando as maiores casas de crédito até aí existentes entre nós, com ramificações mesmo no exterior, discutindo e influindo nos problemas monetários, na elaboração das leis sobre esse assuntos, dirigindo, por assim dizer, em determinada época e circunstancia, a política financeira do Império. Fazia sentir nessas questões o peso da sua autoridade não somente pelo vulto dos negócios que manejava, como por seu traquejo e tirocínio nesses assuntos, pelo seu realismo e consciência dos interesses nacionais. Finalmente, cabe indicar o industrial, o homem de negócios, levantando fábricas, erguendo empresas, modernizando os transportes e as comunicações do país, num esforço inovador admirável, revolucionário para a época. Com isso, não somente a nossa produção ganhava novas dimensões, como os negócios adquiriam outro ritmo. Dessa forma encaminhava o país por novos rumos, inaugurava atividades até então desconhecidas em nosso meio, abrindo com sua ação fecunda um novo capítulo em nossa evolução econômica.
Cada uma dessas facetas, nesta personalidade de singular relevo, merece e tem merecido estudos de destacados publicistas, pondo em relevo as ondulações que as marcam, salientando os traços característicos que as configuram. É, por isso, sem dúvida, uma das figuras mais estudadas de nosso passado. Um de seus descendentes e biógrafo catalogou, em 1943, 16 biografias e estudos sobre Mauá, incluindo aí livros, conferencias, artigos, etc., além de 149 trabalhos a ele referentes e ainda 27 livros e publicações que dele se ocupava e finalmente 5 fontes de pesquisas a seu respeito. E de então para cá, esse número de publicações tem crescido em todos os sentidos, alargando o interesse a seu respeito.
Uma existência assim, tão rica de inspiração e sugestões e que tanto interesse vêm despertando – e cheia realmente de aspectos fascinantes – não pode ser tratada aqui, pelo limite do espaço, mesmo resumidamente em seu conjunto. Devemos contentar-nos, nessas condições, a um aspecto unicamente, limitando-nos em focalizar um dos relevos dessa vida grandiosa: a do homem de empresa e sua significação em nossa história; a sua obra precursora em nossa formação industrial, porque ela é, a nosso ver, a parte mais importante da sua existência, aquela que dedicou maiores esforços e que possui maior significado em toda a nossa evolução até o presente.
Visconde de Mauá
Em 1840, aos vinte e sete anos, Mauá fez a sua primeira viagem a Europa, visitando a Inglaterra, conhecendo assim a nação mais adiantada do mundo do ponto de vista material. A esquadra britânica dominava os mares e isso lhe garantia um intenso comércio com todos os países, assegurando desse modo escoadouro seguro para sua produção industrial, em ascensão contínua. Era certamente a realização de um velho sonho acalentado pela leitura dos jornais ingleses que fazia e pelas conversas com seu sócios. Lá visita fábricas e estabelecimentos comerciais os mais diversos, que o enche de entusiasmo e enriquecem sua experiência. Chama-lhe a atenção, porém, um grande estabelecimento de fundição de ferro e de maquinismo que visita em Bristol, e isto foi decisivo em seu destino posterior, mais tarde, em sua Exposição de Credores, escreveu: “Era precisamente o que eu na mente contemplava como uma das necessidades primárias para ver aparecer a indústria propriamente dita em meu país”. Em seguida acrescenta: “Era já então, como é hoje ainda, minha opinião que o Brasil precisava de alguma indústria dessas que podem medrar sem grandes auxílios, para que o mecanismo de sua vida econômica possa funcionar com vantagem; e a indústria que manipula o Ferro, sendo a mãe das outras, me parecia o alicerce dessa aspiração. Causou-me forte impressão o que vi e observei, e logo gerou-se em meu espírito a ideia de fundar em meu país um estabelecimento idêntico; a construção naval fazia parte também parte do estabelecimento a que me refiro”. Nascia aqui, como estamos vendo,o estabelecimento da Ponta da Areia.
Com esta ideia a bailar-lhe, ou talvez a martelar-lhe o cérebro, Mauá voltou ao Brasil, permanecendo ainda seis anos em sua casa comercial, pois somente em 1846, como dissemos, atirou-se decididamente à atividade industrial.
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Heitor Ferreira Lima 
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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Grandes vultos: Visconde de Mauá - Parte 02.


Estátua de Mauá no Uruguai

GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA (MAUÁ) - PARTE 02.
Era a época do grande predomínio do comércio inglês em nossa terra. Com a vinda da corte portuguesa para o Brasil, fugindo da invasão napoleônica, nossos portos foram abertos ao comércio internacional, ou mais especificamente, ao inglês, o único em condições de transacionar conosco. Em consequência, dos 80 navios estrangeiros de comércio entrados no Rio de Janeiro em 1808, passam rapidamente para 442 em 1810. Tarifa alfandegária favorecida proporciona aos negociantes ingleses vantagem até mesmo sobre Portugal. O comércio britânico passou a dominar completamente o nosso mercado, o que levou um contemporâneo a dizer “Que se devia temer mais um escritório comercial inglês do que todas as peças de artilharia britânica”. Em 1827 já existia entre nós trinta casas de negócios inglesas, os chamados armazéns de grossistas, abarrotados de artigos de ferro, ferramentas, louças, vidros e até queijos de manteiga. Data desse tempo a influência inglesa entre nós, da qual fala tão enternecidamente o Sr. Gilberto Freyre, influência nos hábitos e costumes, que se manifestaram no vestuário, nas jaquetas, nas casacas, nas meias, nos lenços, nas luvas, nas calças de montaria, tudo desses panos de lã e tecidos que a indústria britânica fabricava e nos vendia. Isso levava nossos avós a andarem de sobrecasaca fechada, de lã , com luvas e polainas, em pleno verão tropical do Rio de Janeiro ou Recife, suando em bicas, sob aqueles tecidos pesados e escuros, em moda em Londres. Meio século depois em 1878, 50% dos gêneros importados pelo Brasil vinham do Reino Unido, cerca de 17% da França, 8% de Portugal, 7% dos Estados Unidos e 6% da Alemanha.
Irineu Evangelista de Souza permaneceu no comércio até 1846, quando contava então trinta e seis anos, entregando-se em cheio depois à sua ação industrial e outros negócios. Era uma nova vida que iria começar, com assinalados serviços ao país, entremeadas de aventuras, lançando-o a píncaros talvez não sonhados, mas também plena de dissabores.
Estava rico, com fortuna que lhe assegurava a mais completa independência, mas que para ele representava apenas um início, a possibilidade de realização de sonhos acalentados.
De fato. O balcão não representava somente o recurso a que Mauá recorrera para conquistar uma posição definida e elevada, mas era também seu posto de observação. E o que via em redor, de si? Um país atrasado, por organizar-se, com as lutas políticas do Primeiro Império dilacerando-o. As mercadorias que vendia eram todas importadas do exterior. A cidade era acanhada, sem meios de comunicação. Um país vasto, sem ligação entre o litoral e o centro. Tudo estava por fazer-se, a fim de igualá-lo aos outros países, sobre os quais lia nos jornais ou ouvia seus patroes falarem. Era um imenso campo de negócios e iniciativas que se apresentava ao jovem ambicioso e ávido de empreendimentos.
Lançou-se por isso ao novo campo de atividades com suas energias robustas, desejoso de realizações grandiosas. E os êxitos obtidos desde o início não lhe faltaram, confirmando seus prognósticos. Torna-se em certa época, em decorrência disso, a pessoa   mais rica do país, dirigindo grandes empresas, das mais diversas categorias, o que lhe dá reputação no mundo inteiro. É agraciado com títulos nobiliárquicos e mantém relações e amizades com as personalidades mais importantes do seu tempo, quer do mundo econômico e financeiro, quer do político e administrativo.
E depois dessa ascensão gloriosa, sem par em nossa história até então, vem a debate, a ruína, com uma falência de enorme   repercussão, que o leva a desfazer-se até de objetos de uso pessoal, para atender aos credores.
Temos em segundo lugar, o patriota, o homem que se empenha ao lado do seu governo numa luta internacional de grande   envergadura, a chamada campanha do Prata, prestando auxílio valiosíssimo, decisivo mesmo e cujo concurso lhe é solicitado pelo próprio governo. (Não entramos no mérito daquela luta, mas apenas queremos destacar o papel prestado por Mauá numa ocasião delicada para   nós). Seu concurso é financeiro e diplomático, dando-lhe considerável projeção no Uruguai, em cuja Capital esse feito é lembrado com uma estátua erguida em sua homenagem.
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Heitor Ferreira Lima
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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Grandes vultos: Visconde de Mauá - Parte - 01.


GRANDES VULTOS BRASILEIROS QUE MARCARAM A HISTÓRIA NAS SUAS MAIS DIVERSAS ATIVIDADES
IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA (MAUÁ) - PARTE 01.
(1813-1889)
“Cumpre estar prevenido contra certas ideias apregoadas com dogmática severidade por parte de doutrinários inflexíveis, as quais nem sempre são aplicáveis a países onde as causas que determinam certos fenômenos são diversas...”
Irineu Evangelista de Souza, barão e depois visconde de Mauá, foi sem dúvida alguma, a maior figura no campo econômico que tivemos no Segundo Império, o mais audaz empreendedor do seu tempo e o iniciador da industrialização entre nós. Seu nome, por isso, projetou-se largamente na época, chegando aos nossos dias coberto de glória, embora sua personalidade seja por vezes controvertida. Mas isso é próprio das fortes personalidades humanas, que realizaram algo de imorredouro.
Sua existência, como a de todo grande homem, é fascinante, rica de sinuosidades, compondo-se das mais variadas facetas, todas elas plenas de ensinamentos. Se encontramos nela momentos de glória e esplendor, há também episódios amargos, comoventes mesmo, que só um espírito forte seria capaz de suportar, sem cair no desespero. E no meio disso tudo, um esforço hercúleo, uma vontade inquebrantável de atingir os objetivos visados. É a vida dos predestinados que nos servem de exemplo. Temos assim, em primeiro lugar o lado humano, ou seja, a trajetória do homem neste mundo, que foi eivada de sacrifícios e caracterizada por uma nobilitante força de vontade singular. Tendo nascido nos confins do país, em Arroio Grande, Município de Jaguarão, no Rio Grande do Sul, ficou órfão de pai aos cinco anos, o que o obrigou a ganhar o seu próprio sustento desde os verdes anos. Tendo aprendido a ler com a mãe, evidenciando desde cedo inteligência invulgar, menino ainda, aos nove anos é levado por um tio para o Rio de Janeiro, onde se emprega no comércio, pois não tem qualquer recurso para estudar. Do minguado salário que percebe nesse modesto emprego ainda tira uma pequena parte para enviar à mãe pobre, que ficara distante.
Desembarca na Corte, trazido por um navio a vela, em 1822, o ano da nossa Independência. Sua escola, por isso, foi o rude balcão sobre o qual dormia as poucas horas que lhe sobravam à noite, depois de ler sequiosamente livros e mais livros à luz morta do lampião de azeite, guardando os livros na gaveta do mesmo balcão. Demonstrando sisudez precoce e desejando ardentemente vencer, procurava por todos os meios instruir-se e ganhar simpatias. Um dos fregueses da casa, notando naquele menino vivo e sério, incontido anseio de saber, dá-lhe lições à noite, a portas fechadas, escondido do patrão, proporcionando-lhe com isso mais instrução e conhecimentos práticos, ensinando-lhe Contabilidade, Francês e outras matérias.
Transferindo-se a seguir, para outra casa de comércio, onde consegue desde logo impor-se, conquista a confiança do chefe, a ponto de entregar-lhe a chave do cofre. O dono desta casa comercial, João Rodrigues Pereira de Almeida, não foi porém feliz nos negócios, tendo de liquidá-lo contra a sua vontade, para satisfazer os credores. Entre estes encontrava-se Ricardo Carruthers e Cia., a quem o rapazinho Irineu é apresentado e com quem vai trabalhar daí por diante. Tinha então dezesseis anos, no entanto, sua superioridade sobre os demais caixeiros já era notória. Aprende inglês rapidamente, praticando-o nas transações cotidianas que realizava, adquirindo dessa forma o manejo da língua inglesa em forma exemplar. Isso ajuda-o a subir e ganhar a simpatia dos patrões. Com sete anos de atividade constante e dedicada, torna-se sócio da firma, contando apenas vinte e três anos.
Estava vencida assim a primeira etapa, a mais difícil, a que tivera de criar do nada, sem parentes nem instrução prévia para auxiliá-lo. Em sua famosa Expedição aos Credores, considerada com razão como sua própria autobiografia, recordará mais tarde: “Um dos melhores tipos da humanidade, representado em um comerciante inglês, que se distinguia pela inteira probidade da velha escola da moralidade positiva, depois de provas suficientes de minha parte em seu serviço, escolheu-me para sócio-gerente da sua casa, quando era ainda imberbe, pondo-me assim tão cedo, na carreira comercial em atitude de poder desenvolver os elementos que por ventura se aninhavam em meu espírito”.
Continua...
Heitor Ferreira Lima
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