HISTÓRIA DA LITERATURA MUNDIAL
LITERATURA COMO ATIVIDADE HUMANA ESSENCIAL – PARTE: 02
A consideração do fenômeno literário encontra dificuldades outras, mesmo quando partes do patrimônio literário são conservadas. Suponhamos que lemos numa antologia um poema não pertencente aos clássicos greco-latinos, mas, composto em outra civilização qualquer da Antiguidade. Imenso terá sido o esforço de comentadores especializados para descrevê-lo, traduzi-lo e situá-lo e todos os elementos históricos e arqueológicos possíveis terão sido empregados. No entanto, obscuridades inúmeras subsistirão de maneira a não se poder determinar com segurança o sentido das palavras originais e o texto que hoje lemos será apenas imagem fraca e deformada da comunicação literária há séculos composta. Não existisse esta barreira e o problema, embora reduzido, persistiria: as realidades referidas pelo texto seriam apenas imperfeitamente conhecidas e, mui certamente, bem deformadas pela distância cultural que nos separa das instituições e do sistema de vida que naquela civilização se teria desenvolvido.
Restrinjamos o quadro literário sob consideração e barreiras culturais ainda existirão. No conjunto de uma mesma tradição, como a ocidental, o mesmo assunto desenvolvido por diferentes autores em diferentes momentos históricos fornece textos completamente distanciados. Exemplo suficiente é o Andrômaco composto na Grécia por Eurípedes e na França por Racine. Menos óbvia, mas não menos verdadeira, seria a deformação trazida a uma mesma obra pela simples evolução histórico-cultural. A obra de Shakespeare, em seu próprio país, tem conhecido prismas diferentes consoante a época literária em que é considerada: clássica, romântica, realista, surrealista ou modernista.
Se considerarmos um simples poema composto exatamente em nossa época por autor pertencente a uma literatura estrangeira qualquer, novamente, barreiras culturais e linguísticas específicas prejudicarão nossa apreensão do literário. Tentar ultrapassá-las com o recurso da tradução é tentativa frustrada. A afirmativa de Ezra Pound, segundo a qual a literatura é simplesmente linguagem cuja carga significativa é esquecida por propriedades musicais (melopoeia), por imagística visual (fonopoeia) e pelo aproveitamento contextural das múltiplas potencialidades significativas das palavras (logopoeia), é rápido recurso para, num breve momento de reflexão, levar-nos a reconhecer que apenas a fonopeia, por ser um enriquecimento realizado para ser recebido pela imaginação, poderá ser traduzida e, portanto, quase integralmente comunicada.
Consideremos agora que cada leitor tem um universo pessoal informado por bem determinadas condições histórico-individuais provindas da realidade sócio-econômica em que se insere e enriquecida por suas experiências diretas e intransferíveis na família e na profissão, na adoção de crenças religiosas e opiniões políticas – em suma, é uma totalidade existencial organizada. No diálogo que este determinado leitor estabelece com a obra de um autor – que é uma outra totalidade organizada e que transmitiu a um texto uma concepção do mundo, ou seja, um conjunto de valores religiosos, morais, sociais, econômicos, políticos, eróticos e outros – são relativos os graus de apreensão exata.
As barreiras apresentadas, que, evidentemente não esgotam a multiplicidade delas existentes, são suficientes, no entanto, para que reconheçamos a importância da atividade literária como criação e como fruição. Somente por ser uma atividade humana essencialmente significativa é que a literatura pode resistir a tamanhas barreiras. Isto não significa a eliminação da parcela de jogo sempre presente na atividade literária pois é esta evidente na poesia, mas também importante na prosa ainda que a mais austera, seja sob forma de jogo verbal, seja sob a forma de constante transferência do real vivido ao real imaginado e reconstituído. Vã tentativa seria a literatura como exclusivamente jogo e uma impossibilidade a literatura despida de todo elemento lúdico.
A literatura como atividade essencial corresponde ao mais profundo do humano: a necessidade de expressão e de diálogo. A literatura satisfaz ao inconformismo quanto à solidão e ao deserto pessoal ao conseguir transmitir os valores locais dos seres em si aproxima-se da transmissão do incomunicável de nossas vidas. Dirigímo-nos às obras literárias para comunicarmos nossas esperanças e temores, nossos desejos e desesperanças, nosso conhecimento e nossa ignorância, para tomar contato com outras visões do mundo e para penetrar no recôndito dos seres.
A literatura é, assim, uma forma de expressão e de comunicação, bem como uma forma de conhecimento do mundo e dos seres em sua tipicidade e particularidades e, ainda, forma de transformação do mundo quando encontra o real histórico-social e leva ao combate para a plena formação do ser humano em integral realização de sua essencial liberdade e responsabilidade social.
Fonte: “Os Forjadores do Mundo Moderno”, Editora Fulgor, edição 1968, volume 7, páginas 11/13.