quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Literatura chinesa - Parte: 01


HISTÓRIA DA LITERATURA MUNDIAL

A LITERATURA CHINESA – PARTE: 01

Naturalmente isolada pelo Pacífico e pelos desertos da Ásia Central, a China reforçou seu isolamento cultural com a construção das históricas muralhas. Até o século passado poucos contatos diretos existiram entre o imenso domínio cultural chinês e os outros três importantes conjuntos: a Índia, o Islã, o Ocidente. Nenhuma outra literatura pode vangloriar-se da continuidade que apresenta a chinesa em seus quatro milênios de desenvolvimento. Característica essencial ao espírito chinês é a preocupação com o permanente em sua expressão literária consistindo os comentários de texto, não como no Ocidente, em localização no tempo ou em aproximação aos novos tempos, mas na preocupação fundamental de explicitar e aprofundar a verdade e a sabedoria que creem eterna e imutável.

A transmissão literária chinesa é exclusivamente realizada através da escrita que, ao contrário da infinidade de linguagens faladas, é compreendida por todos os eruditos e se espraia por países vizinhos. Não abrangendo a expressão oral, não compreende também as formas populares do romance, do conto e do teatro. A importância fundamental representada pela expressão gráfica chega a unir em poesia a própria grafia aos sentidos das palavras.

Este imobilismo cultural recebeu a partir do início do atual século uma “injeção de historicidade” por influência da cultura ocidental, principalmente em sua expressão marxista. Ocorre em tal conjunto cultural rápida revolução marcada pela introdução dos conceitos de visão histórica, da ideia evolucionista, da crítica sócio-histórico e também pela inclusão das formas de expressão popular como autênticas manifestações literárias.

Os livros canônicos

A partir do final do século III, as dinastias T'sim e Han empreenderam a unificação e a centralização do que era uma verdadeira confederação com reinos autorizados a relativa independência. Em 213, o poder central decide ordenar a destruição de todos os livros e assim diminuir fatores de emancipação regional. Teriam sido as obras exaltadoras de originalidades regionais completamente destruídas, enquanto as demais recolhidas teriam sido enviadas a uma universidade central. Teria o esforço unificador determinado a reescrita do patrimônio literário para possibilitar o reforço do complexo político, moral e filosófico do central império? É um segredo a mais conservado pela história.

A dinastia Han ordena no século I a.C. a organização de um catálogo geral para os grandes livros. É este catálogo (Ts'ien Han Chou) constituído por seis partes gerais: King ou livros canônicos, obras filosóficas, poemas, obras estratégicas, obras técnicas e tratados de Medicina.

Os King compreendem: o Livro das Mutações (Yi-King) que apresenta técnicas divinatórias, o Livro das Odes (Che-King) com a compilação dos antigos poemas, o Livro da Origens (Chou-King) que consiste na transcrição de documentos históricos, o Livro da Primavera e do Outono (Chun-Kiou) e o Livro dos Ritos (Li-King) que apresenta os necessários procedimentos para cerimônias religiosas e civis. Os King teriam sido escritos ou compilados por Confúcio.

O famoso e importante Tao Tö King apresenta a Filosofia de Lao-tseu e foi escrito pelo discípulo Lao Tan.

Nos livros não é possível distinguir e isolar cada campo de conhecimento, pois o catálogo apresenta textos que são, conjuntamente, filosóficos, morais, científicos, religiosos e literários. Embora abundante produção anônima tenha existido, apenas sobrevive o nome do poeta Ch'ou Yuan que teria vivido entre 322 e 295 a.C.

A dinastia Han que, imediatamente, sucede a dinastia T'sin estimula o esplendor de uma época e reforça o caráter imobilista da Filosofia alicerçada no princípio ultraconservador de que apenas os antigos seriam portadores da sabedoria e de que aos eruditos posteriores restaria apenas o comentário e a paráfrase. Ressalte-se o esplendor da época Han o erudito Lieou Hiang (século I a.C.) e o prosador Sseuma Ts'ien: o primeiro estabelece o texto definitivo para os Kins, o segundo realiza a crônica histórico lendária das primeiras quatro dinastias em seu livro Memórias Históricas.

Fonte: “Os Forjadores do Mundo Moderno”, Editora Fulgor, edição 1968, volume 7, páginas 14/16.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Literatura como atividade humana essencial - Parte: 02.


HISTÓRIA DA LITERATURA MUNDIAL

LITERATURA COMO ATIVIDADE HUMANA ESSENCIAL – PARTE: 02

A consideração do fenômeno literário encontra dificuldades outras, mesmo quando partes do patrimônio literário são conservadas. Suponhamos que lemos numa antologia um poema não pertencente aos clássicos greco-latinos, mas, composto em outra civilização qualquer da Antiguidade. Imenso terá sido o esforço de comentadores especializados para descrevê-lo, traduzi-lo e situá-lo e todos os elementos históricos e arqueológicos possíveis terão sido empregados. No entanto, obscuridades inúmeras subsistirão de maneira a não se poder determinar com segurança o sentido das palavras originais e o texto que hoje lemos será apenas imagem fraca e deformada da comunicação literária há séculos composta. Não existisse esta barreira e o problema, embora reduzido, persistiria: as realidades referidas  pelo texto seriam apenas imperfeitamente conhecidas e, mui certamente, bem deformadas pela distância cultural que nos separa das instituições e do sistema de vida que naquela civilização se teria desenvolvido.

Restrinjamos o quadro literário sob consideração e barreiras culturais ainda existirão. No conjunto de uma mesma tradição, como a ocidental, o mesmo assunto desenvolvido por diferentes autores em diferentes momentos históricos fornece textos completamente distanciados. Exemplo suficiente é o Andrômaco composto na Grécia por Eurípedes e na França por Racine. Menos óbvia, mas não menos verdadeira, seria a deformação trazida a uma mesma obra pela simples evolução histórico-cultural. A obra de Shakespeare, em seu próprio país, tem conhecido prismas diferentes consoante a época literária em que é considerada: clássica, romântica, realista, surrealista ou modernista.

Se considerarmos um simples poema composto exatamente em nossa época por autor pertencente a uma literatura estrangeira qualquer, novamente, barreiras culturais e linguísticas específicas prejudicarão nossa apreensão do literário. Tentar ultrapassá-las com o recurso da tradução é tentativa frustrada. A afirmativa de Ezra Pound, segundo a qual a literatura é simplesmente linguagem cuja carga significativa é esquecida por propriedades musicais (melopoeia), por imagística visual (fonopoeia) e pelo aproveitamento contextural das múltiplas potencialidades significativas das palavras (logopoeia), é rápido recurso para, num breve momento de reflexão, levar-nos a reconhecer que apenas a fonopeia, por ser um enriquecimento realizado para ser recebido pela imaginação, poderá ser traduzida e, portanto, quase integralmente comunicada.

Consideremos agora que cada leitor tem um universo pessoal informado por bem determinadas condições histórico-individuais provindas da realidade sócio-econômica em que se insere e enriquecida por suas experiências diretas e intransferíveis na família e na profissão, na adoção de crenças religiosas e opiniões políticas – em suma, é uma totalidade existencial organizada. No diálogo que este determinado leitor estabelece com a obra de um autor – que é uma outra totalidade organizada e que transmitiu a um texto uma concepção do mundo, ou seja, um conjunto de valores religiosos, morais, sociais, econômicos, políticos, eróticos e outros – são relativos os graus de apreensão exata.

As barreiras apresentadas, que, evidentemente não esgotam a multiplicidade delas existentes, são suficientes, no entanto, para que reconheçamos a importância da atividade literária como criação e como fruição. Somente por ser uma atividade humana essencialmente significativa é que a literatura pode resistir a tamanhas barreiras. Isto não significa a eliminação da parcela de jogo sempre presente na atividade literária pois é esta evidente na poesia, mas também importante na prosa ainda que a mais austera, seja sob forma de jogo verbal, seja sob a forma de constante transferência do real vivido ao real imaginado e reconstituído. Vã tentativa seria a literatura como exclusivamente jogo e uma impossibilidade a literatura despida de todo elemento lúdico.

A literatura como atividade essencial corresponde ao mais profundo do humano: a necessidade de expressão e de diálogo. A literatura satisfaz ao inconformismo quanto à solidão e ao deserto pessoal ao conseguir transmitir os valores locais dos seres em si aproxima-se da transmissão do incomunicável de nossas vidas. Dirigímo-nos às obras literárias para comunicarmos nossas esperanças e temores, nossos desejos e desesperanças, nosso conhecimento e nossa ignorância, para tomar contato com outras visões do mundo e para penetrar no recôndito dos seres.

A literatura é, assim, uma forma de expressão e de comunicação, bem como uma forma de conhecimento do mundo e dos seres em sua tipicidade e particularidades e, ainda, forma de transformação do mundo quando encontra o real histórico-social e leva ao combate para a plena formação do ser humano em integral realização de sua essencial liberdade e responsabilidade social.

Fonte: “Os Forjadores do Mundo Moderno”, Editora Fulgor, edição 1968, volume 7, páginas 11/13.


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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Literatura como atividade humana essencial.


HISTÓRIA DA LITERATURA MUNDIAL

LITERATURA COMO ATIVIDADE HUMANA ESSENCIAL – PARTE I

Estabelecer o exato sentido de literatura é, aparentemente, problema dos mais simples, pois, é o literário presença constante em nossas vidas. No entanto, e talvez justamente por sua união à existência, o literário revela-se como realidade das mais complexas para concisa e satisfatória definição.

Conceituá-la como conjunto de obras literárias de um país ou de uma época, como atividade profissional de produzir obras literárias, ou, ainda como conhecimento de obras literárias e de regras que presidem sua elaboração pode ser uma maneira de abranger-lhe sentidos comuns, mas, certamente, é também a maneira mais cômoda de elidir o ponto central necessariamente pressuposto: como distinguir uma obra literária de uma obra não literária? Ou, em termos finais, qual é a natureza essencial do fenômeno literário?

Adotaríamos talvez a comum definição de literatura como conjunto das comunicações que os homens fazem entre si por meio da linguagem escrita? Diversidades de forma mostrariam a deficiência inicial e intransponível de tal definição: O imenso repertório de literatura oralmente transmitido, já muito antes que o século XVI adotasse a ingênua obediência à etimologia e reservasse o termo literatura para designar comunicações fixadas pela escrita, seria motivo dos mais ponderados para o abandono de tal deficiente definição e para cuidadosa consideração do emprego moderno que inclui como fenômeno literário as artes orais e audiovisuais como o teatro, a música, o cinema, o rádio etc. No entanto, mesmo desconhecendo tais argumentos de forma, também considerações de conteúdo, apontaríamos: a extensão descabida que incluiria os Lusíadas, as novelas sentimentais, “O Ser e o Nada” e “A Evolução das Espécies” como obras igualmente literárias. Intacto estaria o problema de diferenciar o literário, pois reconhecemos sem dificuldades que das obras citadas apenas o poema camoniano pertence à literatura, sendo os demais pertencentes à subliteratura, à filosofia e à ciência.

Não menos vazias e inúteis as definições tradicionais que desenvolvem a caracterização da obra literária por aspectos julgados essenciais, como “união de ordem, força e elegância da expressão verbal” ou “expressão do belo por meio da palavra”. Para localização do essencialmente literário dever-se-ia recorrer ao estudo aprofundado dos clássicos greco-latinos para podermos comparativamente aos padrões, classificar o grau literário de obras sob consideração. Negligenciar o estuda da literatura como fenômeno situado no tempo e no espaço e com natural dinâmica de desenvolvimento é estimular as falsas concepções que acompanham o academicismo e aceitar a irreal e pejorativa visão do literário como um belo teórico e absolutamente distanciado do ser humano em toda sua dramaticidade existencial. Recorrer aos mágicos conceitos “liberdade”, “desinteresse”, “arte pura”, “beleza absoluta”, “forma”, “gênio” e outros semelhantes consiste em, fútil e diletantemente, transformar as “belas letras” em “letras ociosas”. É o fenômeno literário em sua real essência e generalidade, atividade essencial ao ser humano e possui, inevitavelmente, a função social de esclarecer e transformar o homem e o mundo. A suprema importância da literatura pode, paradoxalmente, ser evidenciada pelas imensas dificuldades que encontra para realizar a comunicação artisticamente válida.

Visões diacrônicas do fenômeno literário apresentam com dificuldades intransponíveis as imensas perdas ou destruições do patrimônio literário por surpresas do desenvolvimento histórico da humanidade. Como exemplo do que ocorreu na China, no México, na África muçulmana, em Bizâncio e no Peru, podemos lembrar o episódio lamentável da destruição da literatura ptolomêica de Alexandria, em 641, por ordem do Califa Omar que assim procedeu apoiado no “sublime” motivo de defender os supremos valores do Islã... Consumado estava um dos maiores crimes contra a humanidade e o defensor de Alá, indiscutivelmente seria um dos marcos iniciais do vandalismo que, por temor da verdade e da liberdade humana, prosseguiria na prática de seus crimes sob a cínica justificativa de defesa de valores pretensamente ameaçados.

Fonte: “Os Forjadores do Mundo Moderno”, Editora Fulgor, edição 1968, volume 7, páginas 09/10.

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